Índice
4.1. Prefácio
5.2. O cão no lar
6.3. Educação e treino
7.4. Truques de palco e leitura histórica
8.5. Saúde e doenças dos cães
9.6. Reprodução e cuidados gerais
10.7. Atualização portuguesa: regras, identificação, vacinação e responsabilidade
11.8. Fontes consultadas
O treino do cão será sempre, para qualquer pessoa que goste verdadeiramente deste animal, uma matéria de interesse e de prazer. Não apenas desenvolve a inteligência deste companheiro fiel, aumentando o seu valor como amigo da casa e da família, como também cria momentos de convívio, disciplina e divertimento partilhado.O autor do original pretendia oferecer instruções práticas, simples e humanas. Essa intenção merece ser conservada. Treinar um cão não é dominá-lo por medo, mas antes ajudá-lo a compreender o nosso mundo, a viver melhor dentro dele e a encontrar nele segurança.
O mesmo se aplica à parte médica do livro. Em 1881, o objetivo era permitir ao dono observar sinais de doença, agir cedo e aliviar o sofrimento do animal. Hoje, esse objetivo mantém-se válido, mas já não se justifica aplicar receitas antigas sem enquadramento clínico. A medicina veterinária atual é incomparavelmente mais segura e precisa.
Fica, assim, o propósito desta edição: preservar a ternura, a curiosidade e a utilidade prática da obra original, sem esquecer que um cão é um ser sensível, dependente de nós e digno de respeito.
O cão no lar
O carácter do cão
Entre os animais que convivem com o ser humano, poucos ocupam um lugar tão singular como o cão. A sua afeição, a sua prontidão para observar, a forma como aprende rotinas e lê o nosso tom de voz fizeram dele companheiro de caça, guarda, trabalho, deslocação, salvamento e, acima de tudo, de vida quotidiana.
O autor oitocentista insistia numa ideia que ainda hoje reconhecemos: o cão não vive apenas ao lado da pessoa; vive orientado para ela. Repara em hábitos, em horas, em percursos, em objetos e em estados de espírito. Aprende a antecipar o que vai acontecer. Muitas vezes parece adivinhar a intenção antes mesmo da ordem.
Ao longo da história, o cão foi protetor da habitação, ajudante do pastor, auxiliar do caçador, carregador, puxador de trenó, guardião, mensageiro e salvador. Em contexto português moderno, talvez o vejamos sobretudo como animal de companhia, cão de trabalho especializado, cão de assistência, cão de pastoreio, cão de busca e salvamento ou cão de guarda. Mudam os cenários, mas permanece o mesmo traço: o cão adapta-se ao lugar que lhe damos.
Essa adaptabilidade, porém, exige reciprocidade. Não basta querer um cão; é preciso merecer a confiança dele. Um cão bem tratado torna-se atento, disponível e estável. Um cão confundido, assustado ou mantido em condições pobres pode tornar-se inseguro, reativo ou doente.
Variedades e aptidões
O original dedicava algumas páginas à classificação dos cães por forma do crânio, capacidade olfativa e traços de inteligência, refletindo a ciência do seu tempo. Hoje preferimos uma leitura menos rígida e mais funcional. Em termos práticos, continua a ser útil pensar em grupos de aptidão:
cães de caça e faro;
cães de pastoreio e condução;
cães de guarda e proteção;
cães de companhia;
cães de água, de trabalho ou de utilidade específica.
Em Portugal, para além das raças internacionais mais conhecidas, importa lembrar o património canino nacional: Serra da Estrela, Castro Laboreiro, Rafeiro do Alentejo, Cão de Água Português, Podengo Português, Perdigueiro Português, Barbado da Terceira e outros exemplos ligados a regiões, climas e trabalhos concretos.
Nenhuma raça, porém, dispensa educação. E nenhuma raça, por si só, garante temperamento perfeito. Há tendências, sim; garantias, não. O ambiente, a socialização precoce, a saúde, o maneio diário e a competência do tutor pesam tanto como a genealogia.
Como escolher um cão
O conselho essencial do original continua pertinente: não escolher apenas pelo aspeto. Um cão deve ser escolhido pela adequação entre o seu perfil e a vida real da casa.
Antes de acolher um cão, convém ponderar:
tempo disponível para passeios, treino e companhia;
espaço habitacional e vizinhança;
presença de crianças, pessoas idosas ou outros animais;
orçamento para alimentação, prevenção, vacinação, desparasitação e cuidados veterinários;
objetivo: companhia, desporto, quinta, guarda, trabalho especializado.
Se o animal vier de criador, deve privilegiar-se criação responsável, transparente e com condições sanitárias corretas. Se vier de associação ou centro de recolha, deve pedir-se toda a informação disponível sobre comportamento, saúde, idade aproximada e necessidades específicas. Em ambos os casos, a adoção responsável vale mais do que o entusiasmo do momento.
Educação e treino
Princípios gerais
O coração pedagógico do livro original é simples e continua certo: o cão aprende por repetição, associação e clareza. Quando juntamos sempre a mesma palavra ao mesmo gesto e recompensamos a resposta certa, o cão começa a ligar som, ação e consequência.
Treinar bem é comunicar bem. E comunicar bem com um cão depende de cinco regras:
usar sinais claros e consistentes;
treinar em sessões curtas;
terminar em sucesso;
recompensar o comportamento desejado;
não confundir medo com obediência.
O autor falava repetidamente de paciência e bondade. Nesta edição portuguesa, essas duas palavras passam a ser centrais. O método moderno recomendado é o reforço positivo: comida adequada, brinquedo, elogio, pausa, liberdade de explorar ou acesso a uma atividade agradável. Corrigir, quando necessário, deve significar retirar oportunidade, simplificar o exercício, interromper o erro ou refazer o contexto, não bater.
Começar cedo
O original sugeria familiarizar o cachorro com palavras simples ainda muito novo. Essa ideia é excelente. Entre as primeiras semanas de adaptação e os primeiros meses de vida, vale a pena associar rotinas a linguagem clara:
nome;
vem;
senta;
deita;
espera;
larga;
toma;
anda;
tranquilo.
Nesta fase, mais do que exigir obediência formal, importa criar vocabulário, previsibilidade e segurança. O cachorro aprende que ouvir a pessoa é vantajoso e que o ambiente é compreensível.
Regras práticas de treino
Treine antes de o cão estar demasiado cansado ou demasiado excitado.
Faça sessões de 3 a 10 minutos, conforme a idade e a concentração.
Use prémios pequenos e fáceis de mastigar.
Num mesmo exercício, peça apenas uma coisa de cada vez.
Se o cão falhar duas ou três vezes seguidas, simplifique.
Não repita a ordem em tom crescente como quem ralha; ajude o cão a acertar.
Generalize devagar: primeiro em casa, depois no prédio, no quintal, na rua, no parque e, por fim, com distrações.
Responder ao nome
O original ensina este comportamento de forma muito direta: chamar o cão pelo nome e recompensá-lo sempre que se aproxima. A adaptação atual mantém exatamente essa lógica.
Diga o nome uma única vez. Quando o cão olhar para si, marque esse momento com um "boa" ou "muito bem" e ofereça recompensa. Só depois passe do olhar para a aproximação. Se houver mais do que um cão em casa, trabalhe separadamente no início e só mais tarde em conjunto.
Responder ao nome não é o mesmo que ter uma chamada fiável, mas é o primeiro degrau para a construir.
Dar a pata
Este exercício, popular há séculos, continua a ser útil como jogo de interação e como base para manipulação cooperativa das patas. Em vez de puxar logo pela perna do cão, prefira captar um gesto espontâneo.
Sente-se diante dele com um prémio fechado na mão. Muitos cães tentam tocar com a pata. No instante em que o fizerem, marque e recompense. Depois introduza a deixa verbal: "dá a pata". Mais tarde poderá diferenciar "direita" e "esquerda", se isso for divertido para ambos.
Deitar
O original sugeria guiar o cão e manter a posição por poucos segundos. Continua a ser sensato. Hoje fazemos isso com uma isca alimentar, levando o focinho do cão para baixo e ligeiramente para a frente até ele dobrar os membros anteriores e deitar.
Recompense depressa. Não prolongue demasiado no início. O objetivo não é forçar o cão a permanecer imóvel, mas ensinar-lhe uma posição calma e fácil de repetir.
Pedir
O gesto de "pedir", com o cão apoiado sobre os membros posteriores, pertence à tradição de truques clássicos. Pode ser ensinado a cães fisicamente aptos, com cuidado e por breves instantes, mas não é exercício obrigatório nem aconselhável em animais idosos, com excesso de peso, dor lombar, problemas de joelhos ou conformação desfavorável.
Se for trabalhado, deve sê-lo como comportamento curto, divertido e sem esforço repetido.
Saltar
O livro dedica várias páginas a saltos de barra, de aro e de corda. A lógica é progressiva: obstáculo baixo, comando breve, recompensa imediata e aumento muito gradual da dificuldade. Essa progressão continua válida.
O que muda hoje é o critério físico:
evitar saltos repetidos em cachorros em crescimento;
não usar superfícies escorregadias;
não pedir alturas desproporcionadas;
parar ao primeiro sinal de desconforto ou perda de entusiasmo.
Saltar pode ser um excelente jogo, desde que adaptado ao corpo e à idade do cão.
Andar erguido e "dançar"
O original descreve o clássico cão que se levanta sobre as patas traseiras e roda, imitando uma dança. Em contexto moderno, isto deve ser visto como curiosidade histórica ou exercício muito ocasional e leve. Não deve ser treinado de forma intensiva, nem em cães com risco ortopédico.
Quem quiser trabalhar movimentos lúdicos de proprioceção e coordenação tem hoje alternativas muito mais seguras:
contornar cones;
subir e descer pequenas plataformas estáveis;
tocar num alvo com o focinho;
rodar em ambos os sentidos com amplitude curta;
pôr as patas dianteiras num apoio baixo.
Buscar e transportar
Esta é uma das secções mais úteis do original. Ensinar um cão a buscar e transportar pode ter aplicação diária: trazer um brinquedo, levar um objeto leve, participar em jogos de procura, colaborar em tarefas simples e ganhar confiança.
Comece por reforçar o interesse em segurar um objeto adequado. Depois recompense por o segurar um segundo, dois segundos, três segundos. Em seguida peça um passo com o objeto na boca. Só depois passe para "traz". O exercício de "larga" deve ser ensinado desde cedo para evitar disputa.
O original propunha que o cão levasse cestos, encomendas e até compras. Em ambiente moderno isso pode ser recreativo, mas convém bom senso:
nada pesado;
nada cortante;
nada quente;
nada tóxico;
nada que possa rasgar a boca ou prender a mandíbula.
Ir de uma pessoa à outra
Uma extensão elegante do exercício de transporte é mandar o cão de uma pessoa para outra. Este jogo melhora memória, atenção e deslocação dirigida.
Duas pessoas colocam-se a curta distância. Cada uma chama alternadamente o cão, recompensa e volta a mandar. Mais tarde pode acrescentar-se um objeto leve, um alvo ou uma mensagem simbólica. É um excelente jogo para casa, quintal ou jardim.
A chamada verdadeira
Embora o livro não a desenvolva como hoje faríamos, a chamada é a competência prática mais valiosa de todas. Em Portugal, onde muitos cães vivem entre passeios urbanos, trânsito, parques e zonas rurais, vir quando chamado pode literalmente salvar vidas.
Uma boa chamada constrói-se assim:
palavra exclusiva, como "aqui" ou "vem";
sempre associada a algo muito bom;
nunca usada para acabar imediatamente a diversão nas primeiras fases;
treinada primeiro sem distrações;
reforçada com frequência ao longo da vida.
Se o cão falha fora de casa, a culpa costuma ser do grau de distração, da falta de treino generalizado ou da distância excessiva, não de "teimosia".
Truques de palco e leitura histórica
O que fazer com os truques mais estranhos do livro
O original descreve exercícios como trazer a cauda na boca, empurrar uma bola grande, andar em andas, subir e descer escadas de espetáculo, manter posturas invertidas, "cantar", fingir-se morto ou lançar um pedaço de açúcar do nariz para a boca.
Lidos hoje, estes trechos dizem-nos mais sobre o entretenimento do século XIX do que sobre boas práticas de treino canino contemporâneo. Alguns podem adaptar-se de forma segura como jogos cognitivos leves; outros devem ficar como curiosidade histórica.
Curiosidades que podem ser reinterpretadas
bola rolante: pode transformar-se em empurrar uma bola grande de enriquecimento, em piso seguro e sem inclinação;
fingir-se morto: pode ser convertido num simples "deita de lado" treinado com calma e reforço;
escolher objetos por nome ou cor: excelente exercício cognitivo;
ir buscar um objeto escondido: excelente jogo de procura.
Exercícios a evitar ou a tratar apenas como nota histórica
andas;
saltos excessivos;
postura invertida prolongada;
"dança" repetida em pé;
qualquer técnica baseada em pancadas, ameaças ou dor.
Sambo e a compreensão de palavras
Uma das partes mais encantadoras do livro é a narrativa do cão Sambo. O autor descreve-o como um animal inicialmente desajeitado, mas que, vivendo em forte proximidade com as pessoas, foi aprendendo o significado de objetos, cores, ordens e contextos.
A observação central é valiosa: um cão pode construir um vocabulário surpreendente quando:
vive integrado na rotina humana;
ouve palavras repetidas em contextos estáveis;
recebe consequências claras;
é tratado como parceiro de aprendizagem e não como máquina de obediência.
O livro chega a sugerir exercícios de discriminação de objetos por nome e por cor. Hoje sabemos que muitos cães conseguem, de facto, distinguir dezenas de palavras referentes a brinquedos ou objetos familiares. Nem todos o farão com a mesma facilidade, mas o princípio é excelente.
Jogo moderno de nomes de objetos
30.1. Escolha um objeto com nome simples, por exemplo "bola".
31.2. Mostre-o, diga "bola", incentive o toque ou a pega, recompense.
32.3. Repita em sessões curtas durante vários dias.
33.4. Acrescente um segundo objeto, por exemplo "corda".
34.5. Coloque ambos no chão e peça apenas um deles.
35.6. Recompense fortemente a escolha certa.
Mais tarde poderá pedir:
"traz a bola";
"leva a corda ao sofá";
"põe o boneco no tapete";
"procura a bola azul".
É aqui que o espírito do velho livro continua surpreendentemente moderno.
Saúde e doenças dos cães
Aviso essencial
Esta parte do original exigiu a maior adaptação editorial. O livro de 1881 incluía purgantes, eméticos, compostos de ópio, estricnina, terebintina, amoníaco, sais e outros preparados que não devem ser usados como instruções veterinárias atuais.
Nesta edição, conservam-se:
a observação de sinais clínicos;
a importância da prevenção;
o valor do repouso, do conforto e da boa enfermagem;
a recomendação de pedir ajuda profissional cedo.
Não se reproduz, como receita prática, o receituário antigo.
Prevenção
Tal como no original, também aqui a prevenção vale mais do que o tratamento apressado. Muitos problemas caninos agravam-se porque o tutor repara tarde, interpreta mal ou tenta resolver sozinho durante demasiado tempo.
Os pilares preventivos modernos são:
alimentação adequada à idade e condição corporal;
água fresca sempre disponível;
exercício compatível com raça, idade e saúde;
vacinação e desparasitação definidas com médico veterinário;
controlo de peso;
higiene do espaço;
observação diária do comportamento, apetite, fezes, urina e mobilidade.
O valor da enfermagem simples
O original insiste, com razão, na importância de tratar bem o cão doente. Um animal confortável, abrigado, hidratado e tranquilo tem mais probabilidade de estabilizar do que um cão deixado ao frio, preso, molhado ou constantemente perturbado.
Em doença, o básico continua a ser:
lugar seco, limpo e resguardado;
temperatura ambiente confortável;
água acessível;
alimentação ligeira se tolerada;
repouso;
vigilância séria.
Quando há agravamento, o lugar do cão não é numa experiência caseira: é num consultório ou hospital veterinário.
Como dar medicação
O original explica técnicas de contenção e administração de comprimidos ou líquidos. O princípio geral mantém-se, mas hoje acrescentamos uma regra decisiva: só administrar medicação prescrita ou confirmada por médico veterinário.
Nunca se deve improvisar com medicamentos humanos. Muitos fármacos correntes para pessoas podem ser tóxicos para cães, mesmo em pequenas quantidades.
Quando um medicamento é prescrito:
siga a dose e o horário exatamente;
confirme se é para dar com alimento ou em jejum;
não duplique a dose por esquecimento sem confirmação profissional;
observe vómito, diarreia, sonolência excessiva, tremores ou reação alérgica.
Reumatismo e dor articular
O original atribuía o reumatismo a humidade, frio, excesso alimentar ou esforço. Embora a terminologia tenha mudado, a associação entre dor locomotora, desconforto articular e agravamento por más condições ambientais ainda faz sentido em muitos casos.
Em contexto atual, dor articular, rigidez, dificuldade em levantar-se, relutância em subir escadas ou em saltar devem fazer suspeitar de osteoartrose, lesão muscular, problema ligamentar, displasia ou outra patologia ortopédica.
O que fazer:
repouso relativo;
evitar corridas, saltos e pisos escorregadios;
manter o cão quente e seco;
marcar avaliação veterinária, sobretudo se houver dor evidente ou claudicação persistente.
Paralisia, fraqueza súbita e alteração neurológica
O livro original reúne aqui "palsy" e "chorea", usando categorias antigas. Traduzindo para hoje: qualquer perda de força, arrastar membros, tremores persistentes, espasmos, falta de coordenação, cabeça inclinada ou dificuldade em manter-se de pé justifica observação veterinária urgente.
Não se devem aplicar pomadas irritantes, emplastros ou estimulantes caseiros. A prioridade é diagnosticar: coluna, disco intervertebral, traumatismo, intoxicação, doença neurológica, inflamação, infeção ou distúrbio metabólico.
Convulsões
O original tem um cuidado sensato que merece ser mantido: um cão em convulsão não deve ser automaticamente tomado por raivoso. Continua a ser verdade.
Durante uma convulsão:
afaste móveis e objetos contra os quais o cão se possa magoar;
não meta as mãos na boca;
reduza luz e ruído;
conte a duração;
filme, se isso não atrasar a assistência;
contacte urgência veterinária se a crise durar mais de poucos minutos, se houver repetição ou se for a primeira vez.
Esgana
No original, a esgana surge como uma das doenças mais frequentes e temidas. Continua a ser doença séria, ainda hoje presente, embora muito prevenível por vacinação.
Sinais possíveis:
febre;
apatia;
corrimento ocular e nasal;
tosse;
perda de apetite;
diarreia;
sinais neurológicos em fases mais graves.
Adaptação moderna: não há tratamento caseiro curativo para esgana. O essencial é vacinação preventiva, isolamento de animais suspeitos e assistência veterinária rápida. Cachorros incompletamente vacinados merecem atenção especial.
Catarro, gripe, tosse e inflamações respiratórias
O original separa catarro, influenza, pneumonia e pleurisia. Hoje distinguimos melhor as causas, mas a ideia prática é simples: tosse, corrimento nasal, febre, dificuldade em respirar, cansaço anormal ou respiração abdominal são sinais que não devem ser banalizados.
Um cão com tosse ligeira pode estar apenas com irritação ou infeção respiratória alta. Um cão com respiração acelerada, ruído, esforço para inspirar ou incapacidade de descansar pode estar em situação urgente.
Leve-o depressa ao veterinário se houver:
dificuldade respiratória;
mucosas arroxeadas ou muito pálidas;
febre alta;
abatimento marcado;
agravamento rápido.
Asma e dificuldade respiratória crónica
O termo "asma" usado no século XIX nem sempre corresponde ao diagnóstico moderno. Hoje a dificuldade respiratória crónica pode resultar de colapso traqueal, bronquite crónica, doença cardíaca, obesidade, alterações laríngeas, massa torácica ou outros problemas.
O mais importante é não normalizar a falta de ar. Um cão que se cansa demasiado, tosse muito, respira com esforço ou não tolera exercício precisa de avaliação clínica.
Bócio e tumefações cervicais
O original refere o bócio como aumento do pescoço. Em linguagem moderna, qualquer aumento de volume no pescoço exige exame. Pode ser tiroide, gânglio, abcesso, quisto, tumor, inflamação salivar ou outra causa.
Não se deve "pintar" nem aplicar substâncias irritantes. Deve observar-se:
rapidez de crescimento;
dor;
dificuldade em engolir;
alteração da voz ou da respiração.
Enterite, cólica e peritonite
O livro associa estes quadros a frio, corpos estranhos, alimentação imprópria e irritação intestinal. Continua a ser um bom ponto de partida.
Sinais de alarme digestivo:
vómitos repetidos;
abdómen doloroso;
posição encolhida;
tentativas de vomitar sem sucesso;
distensão abdominal;
apatia intensa;
sangue nas fezes;
ausência de dejeções com vómito e desconforto.
Corpo estranho ingerido, torção, obstrução, pancreatite ou perfuração são urgências reais. Não se devem provocar vómitos nem administrar óleos ou purgantes sem orientação profissional.
Diarreia e disenteria
A observação do original é equilibrada: algumas diarreias são passageiras; outras são graves. Isso continua certo.
Uma diarreia ligeira, sem vómitos, num cão bem disposto, pode justificar vigilância breve, dieta leve e contacto com o veterinário para orientação. Já diarreia com sangue, vómitos, febre, dor, abatimento, desidratação ou duração superior a um ou dois dias merece consulta.
Cachorros, cães idosos, cães muito pequenos e animais com doenças crónicas desidratam mais depressa e exigem menos espera.
Obstipação
O original fala em "costiveness". Em português atual dizemos obstipação ou prisão de ventre.
Pode surgir por:
pouca água;
pouca fibra ou alimentação desajustada;
dor;
sedentarismo;
problemas prostáticos;
corpo estranho;
doença neurológica.
Se o cão faz esforço sem evacuar, chora, fica muito tempo em posição, vomita ou tem abdómen aumentado, não tente resolver apenas com receitas domésticas. Pode não ser mera obstipação.
Icterícia
A coloração amarela dos olhos, das gengivas ou da pele é sempre sinal importante. O original já lhe dava gravidade, e bem.
Icterícia pode relacionar-se com doença hepática, obstrução biliar, infeção, intoxicação, destruição de glóbulos vermelhos ou outras situações potencialmente sérias. Um cão amarelecido, abatido, com vómitos, sede excessiva ou urina alterada deve ser observado sem demora.
Retenção urinária
O original descreve um cão que tenta urinar gota a gota ou deixa de conseguir fazê-lo. Isto continua a ser um aviso urgente.
Um cão que força e não urina, especialmente macho, pode ter obstrução, pedra, tampão uretral, doença prostática ou outra emergência. A retenção urinária pode tornar-se rapidamente grave.
Parasitas internos
O livro falava de lombrigas, ténias e prurido anal com arrastamento do traseiro. Estes sinais continuam familiares.
Hoje, em vez de vermífugos agressivos e empíricos, recomenda-se:
diagnóstico ou prescrição veterinária;
desparasitação adequada à idade e ao risco;
recolha de fezes;
controlo ambiental;
prevenção mais apertada em cachorros.
Pulgas, piolhos, ácaros e sarna
O original agrupava pulgas, "lice" e "mange". O princípio moderno é claro: prurido persistente, queda de pelo, crostas, pele avermelhada, feridas por coçar ou mau cheiro da pele justificam consulta.
Não basta "lavar". Muitas dermatoses exigem tratamento sistémico, controlo de contactos, limpeza do ambiente e confirmação da causa.
Ouvidos
Abanar a cabeça, coçar a orelha, inclinar a cabeça para um lado, dor ao toque ou cheiro desagradável são sinais clássicos de otite. O original observava-os bem.
Hoje sabe-se que a otite pode resultar de alergia, humidade, corpos estranhos, ácaros, anatomia do canal ou infeção secundária. Orelhas não devem ser tratadas com misturas caseiras ou líquidos improvisados. O tímpano pode estar comprometido.
Boca e dentes
O livro falava de "canker in the mouth" e tártaro. A preocupação continua atual. Gengivas inflamadas, mau hálito, dor ao mastigar, salivação excessiva, sangue oral ou recusa de comida dura devem levar a avaliação dentária.
Higiene oral, brinquedos adequados, mastigação segura e limpezas profissionais quando indicadas fazem hoje muito mais sentido do que os antigos gargarejos e cáusticos.
Olhos
Olho vermelho, corrimento, dor, remela espessa, olho semicerrado, opacidade ou trauma são motivos sérios para consulta. Em problemas oculares, horas contam. Nunca se devem aplicar colírios humanos ou medicação antiga sem diagnóstico.
Raiva
O original trata a raiva com enorme solenidade, e bem. A adaptação portuguesa exige, porém, precisão moderna.
Portugal é país indemne de raiva, e o último caso autóctone registado ocorreu em 1960. Isso não elimina o risco de introdução por entrada ilegal de animais suscetíveis vindos de países com circulação da doença. Por essa razão, a vacinação antirrábica dos cães mantém-se obrigatória em território nacional a partir dos 3 meses de idade.
Sinais de alteração grave de comportamento, agressividade incomum, mudança súbita de estado mental, paralisias, hipersalivação ou morte súbita em animal com historial duvidoso devem ser encarados com seriedade. A avaliação clínica de suspeita de raiva compete a médico veterinário, e qualquer agressão por animal sensível à raiva deve ser reportada às autoridades competentes e ao médico veterinário municipal.
Em caso de mordedura numa pessoa:
lavar de imediato a ferida com água e sabão abundantemente;
procurar avaliação médica sem demora;
identificar, se possível e em segurança, o animal agressor;
contactar as autoridades competentes.
Sobre o receituário histórico
O original terminava com uma secção de remédios gerais: pós febrífugos, tónicos, purgantes, injeções, eméticos e misturas diversas. Em 2026, reproduzir essas fórmulas como instruções seria irresponsável.
Fica, por isso, o princípio útil e não a receita antiga:
observar cedo;
hidratar;
manter conforto e higiene;
evitar automedicação;
recorrer ao veterinário antes que o quadro se agrave.
Reprodução e cuidados gerais
Reprodução
O original aconselhava maturidade física antes da reprodução, tranquilidade para a fêmea e vigilância no parto. São ideias ainda sensatas, mas hoje acrescentamos algo fundamental: a reprodução deve ser ponderada eticamente e acompanhada por médico veterinário.
Criar por criar já não é aceitável. Em Portugal, o abandono continua a ser problema real, e qualquer decisão reprodutiva deve considerar:
saúde hereditária;
aptidão comportamental;
condições para a ninhada;
destino responsável dos cachorros;
enquadramento legal do alojamento e da atividade.
Gestação, parto difícil, secreção anormal, febre, prostração da mãe ou falta de crescimento dos cachorros são motivos para assistência imediata.
Crescimento dos cachorros
O livro valoriza leite, alimentação progressiva, espaço e limpeza. Mantém-se certo. O desmame deve ser gradual e a dieta adequada a cachorros. Hoje, alimentos completos formulados para crescimento oferecem segurança nutricional superior às papas improvisadas do século XIX.
Pés, unhas e pequenas lesões
O original aconselhava atenção às patas, às unhas longas e às entorses. Continua excelente conselho.
Em Portugal, sobretudo em contexto de passeios urbanos, serra, campo seco, praias, pisos quentes de verão ou trilhos ásperos, convém vigiar:
cortes;
fendas;
espigas;
queimaduras por pavimento quente;
unhas demasiado compridas;
claudicação após passeio.
Lavar com soro fisiológico ou água limpa, observar e proteger levemente pode bastar em lesões mínimas. Feridas profundas, corpos estranhos, hemorragia, dor marcada ou incapacidade de apoiar a pata justificam consulta.
Bem-estar diário
As últimas linhas do original, apesar da idade, continuam das mais bonitas do livro: não bater, não maltratar, não deixar crianças atormentarem o cão, não conservar um animal apenas por tolerância amarga.
Traduzido para hoje:
um cão precisa de companhia, não apenas de alimento;
precisa de passeio, estímulo, descanso e previsibilidade;
não deve viver preso como rotina permanente;
não deve ser castigado por comportamentos que ninguém se deu ao trabalho de lhe ensinar;
merece uma vida digna do princípio ao fim.
Atualização portuguesa: regras, identificação, vacinação e responsabilidade
Identificação eletrónica e registo no SIAC
Em Portugal, os cães, gatos e furões sujeitos ao regime atual de identificação têm de ser marcados com microchip e registados no Sistema de Informação de Animais de Companhia, o SIAC. Para animais nascidos após 25 de outubro de 2019, a marcação e o registo devem ser feitos até aos 120 dias de idade.
O microchip é colocado por médico veterinário, que faz também o registo e entrega o DIAC, o Documento de Identificação do Animal de Companhia. Esse documento deve acompanhar o animal.
Sempre que haja mudança de titular, mudança de residência, alteração do local de alojamento, desaparecimento ou morte, o registo deve ser atualizado. Em várias destas situações, o prazo de comunicação é de 15 dias.
Licenciamento na junta de freguesia
Os cães registados no SIAC ficam sujeitos a licenciamento anual na junta de freguesia da área de recenseamento do titular. Para cães que não sejam perigosos nem potencialmente perigosos, o registo inicial no SIAC vale como licença durante um ano contado da data do registo.
Na prática, convém confirmar sempre junto da junta de freguesia local quais os documentos exigidos e os prazos de renovação aplicáveis.
Vacinação antirrábica
A vacinação antirrábica dos cães é obrigatória em Portugal. A DGAV refere expressamente a obrigatoriedade de todos os cães com 3 ou mais meses de idade disporem de vacina antirrábica válida. A validade depende da vacina utilizada e do prazo de imunidade indicado para essa vacina.
Além da antirrábica obrigatória, a vacinação polivalente e as desparasitações interna e externa são habitualmente aconselhadas em função da idade, do estilo de vida e da avaliação do médico veterinário.
Se houver agressão, mordedura ou suspeita de raiva
Qualquer episódio de agressão a pessoas ou a animais por parte de cães, gatos ou outros animais sensíveis à raiva deve ser reportado às autoridades competentes para avaliação. A autoridade veterinária concelhia, através do médico veterinário municipal, pode determinar observação clínica, vigilância e outros procedimentos.
Mesmo sendo Portugal um país indemne de raiva, a obrigação de comunicar mantém-se. É uma regra de saúde pública.
Cães perigosos e potencialmente perigosos
Em Portugal, o regime jurídico distingue entre animal perigoso e animal potencialmente perigoso.
É considerado perigoso, entre outras situações, o animal que:
mordeu, atacou ou ofendeu o corpo ou a saúde de uma pessoa;
feriu gravemente ou matou outro animal fora da propriedade do detentor;
foi declarado como tal pelo próprio detentor;
foi considerado de risco pela autoridade competente.
São exemplos de cães potencialmente perigosos, segundo a legislação e a informação pública oficial, determinadas raças e cruzamentos com tipologia semelhante, como:
fila brasileiro;
dogue argentino;
pit bull terrier;
rottweiler;
staffordshire terrier americano;
staffordshire bull terrier;
tosa inu.
A informação oficial da DGAV refere ainda que o American Bully é considerado potencialmente perigoso.
Formação obrigatória para alguns detentores
Os detentores de cães perigosos ou potencialmente perigosos estão sujeitos a deveres reforçados. Entre eles pode incluir-se formação específica para a detenção destes cães, ministrada pela PSP, pela GNR ou por entidades certificadas, nos termos da regulamentação em vigor.
Isto importa muito para quem adapte livros antigos como este: os velhos métodos de "domar" pela força não só são maus, como também são inadequados a uma cultura de responsabilidade legal e de segurança pública.
O que faz sentido conservar do velho livro em Portugal de hoje
Vale a pena conservar:
a paciência no treino;
a ideia de ensinar por etapas;
o respeito pela inteligência do cão;
a observação atenta dos primeiros sinais de doença;
a rejeição da brutalidade.
Vale a pena abandonar:
remédios caseiros perigosos;
castigo físico;
truques que sobrecarregam articulações e coluna;
qualquer prática que transforme o cão num objeto de espetáculo à custa do seu bem-estar.
Fontes consultadas
Fontes oficiais portuguesas e institucionais
71.1. DGAV, "Raiva"
https://www.dgav.pt/animais/conteudo/animais-de-companhia/saude-animal/raiva/
72.2. DGAV, "Saúde Animal - Animais de Companhia"
https://www.dgav.pt/faq/conteudo/animal/animais-de-companhia/saude-animal/
73.3. DGAV, "Cães, Gatos e Furões"
https://www.dgav.pt/animais/conteudo/animais-de-companhia/identificacao-registo-e-movimentacao-animal/caes-e-gatos/
74.4. DGAV, "Registo no Sistema de Informação de Animais de Companhia (SIAC)"
https://www.dgav.pt/animais/conteudo/animais-de-companhia/identificacao-registo-e-movimentacao-animal/caes-e-gatos/1-registo-no-sistema-de-informacao-de-animais-de-companhia-siac/
75.5. DGAV, "Registo SIAC - Informações para Titulares"
https://www.dgav.pt/animais/conteudo/animais-de-companhia/identificacao-registo-e-movimentacao-animal/caes-e-gatos/1-registo-no-sistema-de-informacao-de-animais-de-companhia-siac/1-1-informacoes-para-titulares/1-1-1-registo-siac/
76.6. DGAV, "Licenciamento na Junta de Freguesia"
https://www.dgav.pt/animais/conteudo/animais-de-companhia/identificacao-registo-e-movimentacao-animal/caes-e-gatos/2-licenciamento-na-junta-de-freguesia/
77.7. DGAV, "Informações Gerais - Animais perigosos e potencialmente perigosos"
https://www.dgav.pt/animais/conteudo/animais-de-companhia/animais-perigosos-e-potencialmente-perigosos/informacoes-gerais/
78.8. DGAV, "Formação de Detentores de Cães Perigosos e Potencialmente Perigosos"
https://www.dgav.pt/animais/conteudo/animais-de-companhia/animais-perigosos-e-potencialmente-perigosos/formacao-de-detentores-de-caes-perigosos-e-potencialmente-perigosos/
79.9. DGAV, "Nota explicativa / campanha de vacinação antirrábica"
https://www.dgav.pt/wp-content/uploads/2026/03/Nota-informativa_esclarecimentos-2026.pdf
80.10. SIAC, FAQ
https://www.siac.vet/faq/
81.11. PSP, "Cães Perigosos e Potencialmente Perigosos"
https://www.psp.pt/Pages/atividades/CaesPerigosos.aspx
82.12. Diário da República, Decreto-Lei n.º 82/2019, de 27 de junho
https://files.dre.pt/gratuitos/1s/2019/06/12100.pdf
83.13. Diário da República, Lei n.º 46/2013, de 4 de julho
https://files.dre.pt/1s/2013/07/12700/0390703921.pdf
Nota final
Este livro destina-se a fins históricos, culturais e práticos de leitura. Não substitui aconselhamento veterinário, diagnóstico clínico, enquadramento legal individualizado nem formação profissional em treino canino.
