Breeding, Training, Management, Diseases, etc. of Dogs, de Francis Butler, é um daqueles livros antigos que procuravam ser tudo ao mesmo tempo: manual prático, obra de observação, coleção de descrições de raças, guia de treino e compêndio de saúde canina. A edição consultada apresenta-se como uma quinta edição revista e aumentada, com apêndice e numerosas ilustrações de diferentes tipos de cães, o que mostra bem a ambição do projeto: oferecer ao leitor um volume abrangente sobre o cão, pensado tanto para curiosos como para criadores, donos e treinadores. O editor apresenta Butler como uma autoridade americana de primeira linha sobre o tema e refere mesmo o reconhecimento da sua obra em ambos os lados do Atlântico.
Este livro de Francis Butler é, ao mesmo tempo, um tratado sobre a natureza do cão, um manual de criação, um guia de treino, um compêndio de conselhos de saúde e uma coleção de histórias destinadas a provar a inteligência, a fidelidade e a utilidade do animal. A obra foi escrita no século XIX e isso nota-se muito no tom, nas crenças científicas, no modo de falar das raças e em vários conselhos médicos e práticos. Ainda assim, por baixo dessa linguagem antiga, há uma ideia central muito nítida: o cão é o companheiro animal mais próximo do homem, dotado de grande capacidade de aprendizagem, e quase tudo o que ele se torna depende da combinação entre a sua natureza, o hábito, a educação recebida e a qualidade do trato humano.
Logo na introdução, Butler apresenta-se como alguém mais interessado na observação direta e na experiência do que nas teorias abstratas dos naturalistas. Ele discorda de muitos autores da sua época que tentavam explicar a origem dos cães ou as diferenças entre raças através de sistemas demasiado rígidos. Em vez disso, prefere um conhecimento prático: olhar para os animais, comparar comportamentos, ver o que resulta na criação e no treino, e desconfiar de dogmas repetidos só porque vêm de autores famosos. Esta atitude atravessa o livro inteiro. Ele quer parecer menos um académico e mais um homem habituado a lidar com cães reais, com os seus corpos, hábitos, doenças, vícios e talentos.
Na primeira parte substantiva, dedicada ao cão em geral, o autor insiste na singularidade da espécie. Para ele, o cão destaca-se entre os animais domésticos pela sagacidade, pela docilidade, pela fidelidade e pela sua capacidade de entrar verdadeiramente na vida humana. Não é apenas útil: torna-se guarda, companheiro, auxiliar do caçador, salvador, vigia da casa e até espécie de espelho emocional do dono. Butler sublinha que, embora as pessoas tendam a glorificar a sua raça favorita, a verdade é que muitas diferenças de comportamento resultam menos da raça em si do que da convivência, do treino e da rotina. Um cão de casa, bem tratado, habituado à companhia humana, aprende gestos, horários, hábitos e sinais quase sem ensino formal; um cão acorrentado, isolado ou brutalizado parece estúpido ou feroz, quando na verdade foi a vida que o deformou. Aqui aparece uma das ideias mais importantes do livro: o meio e o tratamento moldam profundamente o carácter do cão.
Quando aborda a origem das diferentes raças, Butler mostra-se céptico perante explicações simples. Não aceita facilmente a ideia de que todas as raças descendam de uma única forma original claramente identificável. Defende antes que o cruzamento, o clima, a alimentação, o trabalho exigido ao animal e a seleção feita pelos homens produzem transformações muito profundas ao longo do tempo. Algumas raças conservam traços muito próprios e parecem ter uma individualidade forte; outras mostram como a mistura pode gerar novas formas físicas e novas aptidões. O autor insiste em que o aspeto exterior, por si só, engana muitas vezes. Um cão pode parecer puro e trazer uma ascendência muito misturada; outro pode revelar, numa ninhada, características inesperadas. Por isso, a criação exige prudência, olho clínico e menos ilusão do que vaidade.
A secção sobre criação desenvolve essa mesma lógica. Butler repete que “um bom começo” é decisivo. Escolher bem os progenitores é, para ele, meio caminho andado para obter cães saudáveis, úteis e equilibrados. Há muita insistência na pureza ou, pelo menos, na qualidade da linhagem, mas não apenas por razões estéticas: o autor liga a escolha dos reprodutores à coragem, à inteligência, à robustez física e à aptidão para determinadas tarefas. Na parte dedicada ao cio, ao acasalamento, à gravidez e às crias, a preocupação principal é o controlo. A cadela deve ser protegida de cruzamentos indesejados, o período fértil deve ser vigiado com atenção e o parto deve decorrer num local calmo, seco e seguro. Depois do nascimento, a mãe precisa de conforto e tranquilidade, e as crias não devem ser excessivamente manuseadas. Butler valoriza bastante os cuidados da mãe e reconhece que criar cachorros à mão é mais difícil do que deixar a natureza, quando pode, cumprir o seu papel. Ao mesmo tempo, aconselha uma espécie de endurecimento gradual: nem abandono, nem mimo excessivo.
Essa ideia passa para a secção de maneio e tratamento geral. Aqui, uma das frases-chave do livro é que compreender o maneio do cão é mais importante do que conhecer “mil remédios”, porque a prevenção vale mais do que a cura. O autor vê muitos cães a adoecer não só por negligência, mas também por excesso de indulgência. O cão demasiado mimado, demasiado aquecido, sobrealimentado e pouco exercitado torna-se, na sua perspetiva, muito mais frágil do que o animal criado com simplicidade, ar livre e rotina sã. Butler recomenda abrigo confortável mas não abafado, cama seca, alimentação moderada, exercício regular, atenção ao apetite, à digestão e às fezes, e desconfiança perante qualquer luxo que enfraqueça a constituição. O princípio é claro: o cão deve viver com conforto, mas sem se tornar um inválido doméstico. A saúde depende da regularidade mais do que da sofisticação.
Ainda nesta lógica de formação do corpo, o autor fala da dentição, da necessidade de atenção nesta fase delicada, da limpeza dos dentes e de certas práticas físicas então comuns, como o corte das orelhas, da cauda e a remoção das garras de orvalho. Curiosamente, apesar de o livro pertencer ao seu tempo, Butler é bastante crítico em relação ao corte das orelhas, considerando-o prejudicial e muitas vezes desnecessário, ainda que reconheça que alguns criadores o apreciavam por razões de aparência ou de luta. Também trata da castração e de outras intervenções como operações práticas do quotidiano da criação. Hoje, várias destas passagens devem ser lidas com distância histórica e não como orientação atual, mas elas revelam um dado importante sobre o livro: ele quer ser útil e doméstico, isto é, quer servir quem cuida de cães no dia a dia, mesmo quando entra em temas cirúrgicos ou controversos.
A parte do treino é provavelmente o coração da obra. Butler combate a ideia de que só alguns cães extraordinários são educáveis. Para ele, quase todos os cães podem aprender muito se forem treinados de modo correto. O que falha, na maioria dos casos, não é a inteligência do animal, mas o método do dono. O autor enumera princípios que, apesar da linguagem antiga, continuam reconhecíveis: compreender o temperamento do cão, não exigir demasiado de uma só vez, usar o mínimo de força possível, insistir sempre na obediência, ter um só orientador principal, fazer lições curtas, frequentes e regulares, e associar o trabalho ao prazer. Há uma fórmula quase pedagógica no texto: muito encorajamento, alguma desaprovação firme, muita paciência e correção suave. Butler acha que o cão aprende melhor quando o treino desperta inclinações naturais e transforma a tarefa em espécie de jogo. A obediência não deve nascer da fúria do treinador, mas da clareza, da repetição e do hábito.
Por isso, quando ensina exercícios concretos, o método é gradual. Primeiro vêm os comandos básicos: deitar, parar, vir, ficar, seguir, manter-se no lugar. Depois surgem os truques e as utilidades: dar a pata, sentar, levantar-se, andar nas patas traseiras, buscar, carregar, procurar e encontrar objetos, entrar e sair de água, subir e descer escadas, não entrar em certas divisões, não sair por portas abertas, saltar, fingir-se morto, resistir à tentação de comer o que está ao alcance, levar cestos ou recados, acordar o dono a uma hora certa, servir de guarda e caçar ratos. Mais importante do que a variedade dos exercícios é o princípio subjacente: o cão deve compreender claramente o que se quer dele, receber correção imediata e proporcional quando erra, e ser recompensado quando acerta. Butler adverte também contra um erro muito comum: confundir o cão com excesso de ordens, múltiplos mestres e demonstrações desorganizadas para divertir visitas. O treino perde-se quando deixa de ser coerente.
A obra dedica ainda bastante espaço aos cães de caça, sobretudo ao pointer e ao setter. Butler recusa o debate simplista sobre qual dos dois é “melhor” em absoluto. A sua resposta é pragmática: depende do clima, do terreno, do tipo de cobertura, da resistência necessária, do gosto do caçador e da qualidade concreta do exemplar. O setter é apresentado como mais robusto em clima frio, melhor em água e mais apto para cobertura densa; o pointer, como mais adequado ao calor e, em certos contextos, mais fácil de governar no campo. Na parte do “breaking” ou educação do cão de caça, a tese repete-se: prevenir maus hábitos é muito mais fácil do que corrigi-los tarde. Um cão habituado cedo à disciplina, ao chamamento, ao “down”, à procura controlada e à contenção da excitação conserva melhor as suas qualidades naturais. Um cão deixado em liberdade desordenada durante demasiado tempo torna-se mais difícil, mais selvagem e mais sujeito a vícios de campo.
A longa secção sobre doenças mostra bem o tipo de veterinária prática que o autor quer oferecer. Butler não pretende construir um sistema médico completo, mas dar ao dono comum meios para reconhecer sinais, prevenir males e aliviar casos frequentes. A primeira grande ideia desta parte é que as doenças dos cães estão muitas vezes ligadas ao modo de vida: excesso de comida, falta de exercício, calor, humidade, má digestão, confinamento, fraqueza constitucional e descuido. Em vez de confiar cegamente em remédios fortes, ele insiste em observar o animal: expressão, apetite, fezes, disposição, modo de andar, olhos, respiração. Entre as afeções tratadas estão ataques ou convulsões, esgana, diarreia, prisão de ventre, paralisia, sarna, tosse, asma, inflamações respiratórias, vermes, reumatismo, doenças dos olhos e dos ouvidos, entorses, luxações, fraturas, feridas e inchaços. O tom é caseiro e direto: menos teoria, mais reconhecimento de sintomas e mais medidas de apoio.
A esgana surge como uma das doenças mais temidas, sobretudo nos cães jovens e delicados. O autor admite não conhecer uma cura soberana e insiste que, em muitos casos, o essencial é calor suficiente, limpeza, dieta leve, repouso, cama confortável e vigilância constante. Também na discussão da hidrofobia ou raiva há uma ideia forte: o pânico público exagera enormemente o número de casos, e muitos cães são tidos por loucos quando estão apenas doentes, fatigados, excitados ou em convulsão. Butler considera a verdadeira hidrofobia rara e frequentemente mal diagnosticada, embora reconheça a gravidade extrema da suspeita. A solução proposta é a prudência: isolamento, observação, evitar o contacto e impedir mordeduras. Tal como em outras partes médicas do livro, surgem tratamentos hoje claramente ultrapassados, mas o ponto principal é que o autor tenta distinguir o medo irracional da observação cuidadosa.
O apêndice amplia o retrato moral do cão. Reúne anedotas, reflexões e excertos de outros autores para demonstrar que o cão é sensível ao humor humano, fiel até ao sofrimento, capaz de hábitos herdados e aptidões quase especializadas. Há histórias de cães pastores, de salvamento, de cães que reconhecem donos após longas ausências, de animais que parecem entrar em desespero depois de maus-tratos ou perda, de cães “sábios” ou muito treinados, e de comportamentos que o século XIX lia como heroísmo, gratidão, orgulho ou até suicídio canino. Esta parte do livro não é um tratado sistemático, mas reforça emocionalmente a tese principal: quem vive atentamente com cães percebe neles inteligência social, memória, apego e uma capacidade de ligação que vai muito além da utilidade mecânica.
Nas páginas finais, o livro abre-se também ao mundo da “dog fancy”, das exposições caninas, da anatomia e da terminologia das raças. A descrição de um bench show e as regras do Westminster Kennel Club mostram um momento histórico em que o cão deixa de ser apenas auxiliar de trabalho ou companheiro privado e entra plenamente na cultura de exposição, classificação e competição. A secção sobre o esqueleto canino tenta dar ao leitor uma base anatómica simples; o glossário explica termos técnicos usados por criadores e juízes. Isso completa a ambição da obra: não quer apenas ensinar a alimentar ou a mandar sentar um cão, mas oferecer ao leitor uma visão quase total do universo canino tal como ele era entendido no fim do século XIX.
Em síntese, a ideia mais importante do livro é esta: o cão possui grandes qualidades naturais, mas essas qualidades precisam de direção humana para florescerem. A raça importa, mas não decide tudo; a linhagem conta, mas o hábito conta também; a saúde depende menos de remédios milagrosos do que de maneio sensato; o treino bem feito exige constância, clareza e moderação; e o carácter do cão responde profundamente ao modo como o homem o trata. Butler vê o cão como amigo, servo, aluno e espelho moral do dono. Quando é bem criado, bem alimentado, bem observado e bem instruído, o cão revela coragem, utilidade, inteligência e afeição. Quando é abandonado, confundido, brutalizado ou mimado em excesso, degrada-se. É por isso que o livro, apesar de muito datado em vários aspetos, continua a ter um núcleo reconhecível: uma defesa da atenção, da disciplina e da relação próxima entre o ser humano e o cão.
