Se está preocupado com toda a porcaria que está a contaminar o abastecimento alimentar, então talvez deva considerar começar a sua própria horta. No entanto, se usar água da torneira e fertilizantes comprados na loja para cuidar dessa horta, pode acabar por contaminar os produtos que está a cultivar. Uma das melhores formas de ter uma horta e evitar estes problemas é cultivar fora da rede (off-grid). Este BLOG explica o que isso significa e como o pode fazer de forma eficaz, para que possa desfrutar dos frutos do seu trabalho sem preocupações com custos adicionais, impacto ambiental ou contaminantes para a sua família.
O Que é Horticultura Fora da Rede?
Horticultura fora da rede é um conceito bastante simples. Na verdade, envolve técnicas de cultivo que eram comuns antes do aparecimento da eletricidade e da água canalizada. Basicamente, quando cultiva desta forma, cultiva apenas com o que a Natureza fornece: água da chuva e luz solar. Sem eletricidade, sem água da rede e sem adições artificiais ao solo. Apenas as boas e velhas provisões naturais.
As Vantagens de Viver Fora da Rede
Viver fora da rede não é um conceito novo. Durante muitos anos, as pessoas têm abandonado a eletricidade produzida comercialmente em favor de um estilo de vida mais natural. O avanço da tecnologia solar torna ainda mais fácil desligar-se da rede elétrica, sem sacrificar a qualidade de vida. Atualmente, algumas estimativas indicam que até cerca de 180.000 casas vivem fora da rede, produzindo a sua própria energia, enquanto outras 27.000 utilizam fontes de energia off-grid para complementar um estilo de vida que continua ligado à rede.
Isto levanta uma preocupação para quem pretende criar uma horta. A horticultura convencional recorre a energia para levar água da rede às plantas e a luz artificial para as plântulas (mudas) em fase inicial. Será possível cultivar de forma verdadeiramente biológica, sem depender da rede elétrica?
Sim, é absolutamente possível. No entanto, isto exige algum conhecimento técnico. Não é tão simples como semear e deixar crescer. Se não regar, como sabe, as sementes morrem, porque a chuva nem sempre cai quando é preciso. Terá de encontrar formas de recolher água da chuva para usar durante os períodos secos.
Os insetos também podem ser um problema. Este blog vai ensinar-lhe como lidar com eles de forma natural. Se está pronto para ter uma horta que não depende “da rede”, então continue a ler.
Escolher o Estilo da Sua Horta
Sim, a horticultura tem estilos — mas não no sentido de lenços coloridos e calças skinny. Os estilos de horticultura referem-se ao tipo ou ao layout da horta. Vai precisar de escolher um estilo que se adeque às suas competências, ao seu clima e ao seu espaço. Eis alguns estilos comuns:
Hortas em Contentores (Vasos/Recipientes)
As hortas em contentores são difíceis de fazer fora da rede, porque requerem recipientes. Os recipientes não são exatamente material “off-grid”, mas se plantar a horta e depois fizer o resto fora da rede, tecnicamente pode contar.
Numa horta em contentores, as plantas não são colocadas diretamente no solo. Em vez disso, são plantadas em recipientes colocados sobre o chão, cheios de solo nutritivo. Isto pode funcionar muito bem se tiver pouco espaço ou se não tiver a possibilidade de criar uma área de horta no terreno.
Para manter este tipo de horta fora da rede, vai precisar de uma fonte de solo natural. Terra comprada em loja não será a melhor opção biológica. Se tiver um amigo que permita que retire alguma terra do quintal dele, ou se tiver no seu terreno uma zona onde possa cavar e retirar terra (uma zona que não seria boa para a horta em si), então pode tornar uma horta em contentores viável.
Escolher a Localização
Escolher o local da horta é essencial se pretende cultivar fora da rede. Precisa de um local com luz solar suficiente e exposição à chuva, mas que não fique sujeito a enxurradas (runoff) em caso de chuva forte. Uma zona plana e aberta do seu terreno, sem árvores por cima, é o local ideal para uma horta. Se tiver de podar árvores para tornar isso possível, faça-o.
Também terá de determinar o tamanho necessário. Isso depende de quantas plantas e de que tipo pretende cultivar. Pesquise as plantas escolhidas para saber quanto espaço de crescimento precisam. Depois, use essa informação para calcular a área necessária e escolha um local que seja suficientemente grande.
Escolher as Plantas
Depois de ter um local e um tipo de horta em mente, precisa de escolher as plantas. Ao fazê-lo, convém tomar nota de vários aspetos, incluindo:
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O que a sua família realmente consome
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O que poderia vender ou oferecer a outras pessoas
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Que plantas crescem bem juntas
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Que culturas consegue conservar para usar fora da época de cultivo
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Que plantas se dão bem na sua zona geográfica
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Que culturas pode escolher para ter diferentes épocas de colheita
Reserve tempo para pesquisar e encontrar uma combinação de plantas que lhe dê boa comida ao longo da época de cultivo, bem como alimentos para conservar para a época sem produção. Além disso, escolha plantas que cresçam bem juntas e inclua alimentos que a sua família realmente coma.
Depois de saber que plantas vai cultivar, terá de escolher as sementes. Aqui é que pode ficar complicado. Os alimentos geneticamente modificados são tão comuns na dieta moderna que pode ter de procurar bem para encontrar sementes verdadeiramente biológicas. Certifique-se de que as sementes que compra são não-OGM (non-GMO), para ter uma horta verdadeiramente biológica e evitar potenciais riscos associados a estes alimentos.
Iniciar Sementes
Uma decisão que terá de tomar logo no início é se vai cultivar a partir de plântulas (mudas) ou diretamente a partir de sementes. A única forma de ter a certeza de que as plantas são realmente biológicas é começar pelas sementes, por si mesmo.
Saiba Quando Iniciar as Sementes
Antes de iniciar as sementes, precisa de pesquisar. Encontre um calendário/tabela de sementeira para a sua região, para garantir que inicia as sementes na altura certa, de modo a poder transplantá-las para o exterior na estação ideal. Depois, arranje tabuleiros de viveiro (ou bandejas) que possa usar para as iniciar. Isto ajuda-o a reciclar enquanto começa a sua horta.
O recipiente onde inicia as sementes deve ter entre 5 e 7,5 cm de profundidade (2 a 3 polegadas). Faça furos no fundo para drenagem.
Misture um Substrato de Germinação
As sementes precisam de um substrato adequado para começar bem. Para fazer o seu, misture partes iguais de turfa, vermiculite e perlite. Depois, acrescente 1/4 de colher de chá de cal a cada galão do preparado inicial. Isto neutraliza a turfa.
Se estiver a iniciar uma planta mais delicada, como alface, melões ou pepinos, então deve acrescentar duas partes de composto bem curtido à mistura.
Plantar as Sementes
Antes de plantar as sementes, coloque o substrato nos recipientes e humedeça-o ligeiramente. Deite algumas sementes em cada recipiente e cubra-as. A profundidade deve ser cerca de três vezes a espessura da semente. Depois, cubra os recipientes com uma leve camada de musgo esfagno moído (sphagnum). Isto funciona como um fungicida natural e protege as sementes de apodrecerem antes de germinarem.
As sementes precisam de um ambiente húmido e quente para germinar. A menos que tenha uma estufa, cubra as bandejas com vidro ou mesmo película aderente para criar esse microclima. Depois, coloque-as num local quente, como uma janela com boa luz ou perto de uma fonte de calor, como uma lareira.
Terá de manter a temperatura das sementes por volta dos 70 graus (cerca de 21 ºC) para uma germinação adequada. Borrife as sementes diariamente com um pulverizador para manter a humidade.
Lidar com a Natureza de Forma Natural
Um dos maiores desafios da horticultura biológica é lidar com todos os “perigos” que a natureza gosta de atirar às suas plantas. A fraca qualidade do solo e as pragas são dois dos maiores. Ainda assim, existem formas de fertilizar e proteger as plantas sem comprometer os seus objetivos biológicos.
Teste o Seu Solo
Antes de começar a adicionar fertilizante ao solo, considere mandar fazer uma análise do solo. Pode precisar de se concentrar em fertilizantes que acrescentem nutrientes específicos. Adicionar os nutrientes errados prejudica o solo. Quando tiver um solo saudável como base, pode mantê-lo saudável com composto e rotação de culturas, mas deve corrigir quaisquer deficiências antes de começar.
Receita de Fertilizante Biológico
Pode fazer o seu próprio fertilizante biológico para alimentar as plantas sem químicos tóxicos. Para isso, misture:
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4 partes de farinha de sementes ou farinha de peixe
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1 parte de cal dolomítica
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1 parte de farinha de kelp (algas)
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1 parte de fosfato de rocha
Tenha em mente que deve medir os ingredientes por volume, não por peso. Planeie usar 10 libras de fertilizante por cada 100 pés quadrados de horta (aprox. 4,5 kg por 9,3 m², ou cerca de 0,49 kg/m²).
Compostagem na Horta
Outra forma de alimentar a sua horta — e ainda mais “off-grid” — é usar o seu próprio composto. Compostar não é difícil nem caro, apenas exige planeamento. Crie um local no seu terreno para uma pilha de composto. Pode usar um contentor, mas não é obrigatório. A pilha pode ser feita diretamente no chão.
Comece com folhas, palha seca e aparas de relva. Depois, sempre que tiver material orgânico, adicione-o à pilha. Todos os restos orgânicos de cozinha devem ir para lá. Por exemplo, a casca da melancia ou o caroço/coração de uma maçã devem ser adicionados. Itens surpreendentes que também pode adicionar incluem cascas de ovo, cabelo e farinha de ossos.
À medida que a pilha começa a decompor-se, precisa de ser revolvida para permitir que o ar chegue a todas as camadas. Se usar uma forquilha e a revirar uma vez a cada duas semanas, deverá obter um bom composto. O composto está pronto quando já não consegue identificar os materiais que colocou e quando parece e cheira a terra escura e rica. Se cheirar mal, está demasiado húmido ou não foi revolvido o suficiente.
Como Usar o Composto
Quando o composto estiver pronto, pode adicioná-lo ao solo. Isto deve ser feito antes de plantar as plântulas. Aplique cerca de 2,5 a 7,5 cm (1 a 3 polegadas) de composto na superfície do solo e incorpore. Antes de plantar, o composto deve ficar a uma profundidade de cerca de 10 cm (4 polegadas). Não use composto inacabado, pois prejudica o crescimento das plantas.
O composto também pode ser usado como cobertura (mulch). Aplique uma camada de 7,5 a 10 cm (3 a 4 polegadas) sobre o solo depois de plantar, mas deixe uma abertura de 5 a 7,5 cm (2 a 3 polegadas) à volta dos caules. Pode usar composto acabado ou inacabado desta forma. Tenha em conta que o composto, ao contrário de uma cobertura tradicional, não bloqueia o crescimento de ervas daninhas. Deve adicionar mais composto todos os anos, à medida que as camadas inferiores se decompõem.
Controlo Biológico de Pragas
O controlo de pragas é onde muitos horticultores biológicos ficam “presos”. Químicos tóxicos funcionam bem como repelentes, mas contaminam o solo.
Uma das formas de limitar pragas é diversificar a horta. Quanto mais biodiversa for a horta, menos apelativa se torna para certos tipos de pragas, pois a maioria tem plantas-alvo preferidas.
Depois, se possível, traga predadores naturais. Sapos, rãs e lagartos comem os insetos que querem comer as suas plantas. Se conseguir arranjar joaninhas para introduzir na horta, vai reduzir significativamente os pulgões.
Adicionar plantas com flores pequenas pode atrair insetos predadores. O alyssum-doce e o endro (dill) são exemplos. Esses insetos ajudam a manter a horta livre de outras pragas indesejadas. Tagetes (cravos-túnicos / “marigolds”) podem afastar animais, como toupeiras, que são atraídos pelo cheiro da horta.
Considere cobrir a horta com uma rede. Isso ajuda a proteger contra pragas maiores, como pássaros ou até coelhos. Se estes métodos falharem, considere pesticidas orgânicos, como Bacillus thuringiensis, ou óleos hortícolas. Pode até pulverizar insetos com um spray de malagueta picante ou alho para os eliminar, se tudo o resto falhar.
Por fim, coloque uma vedação em volta da horta se estiver numa zona onde veados ou outros animais grandes possam entrar. Isto também ajuda a definir a área do seu terreno dedicada à horta.
Combater as Ervas Daninhas
Se criar uma horta que esteja a crescer bem, vai ter problemas com ervas daninhas. As ervas daninhas gostam de solo saudável tanto quanto as suas plantas. A melhor forma de lidar com elas é arrancá-las. Pode usar cobertura para limitar ervas, mas, no fim, não há nada melhor do que baixar-se e arrancar a erva pela raiz.
Canteiros elevados também podem ajudar a limitar ervas daninhas. Faça a monda à mão ou com uma sacho/enxada de jardinagem. Se não conseguir fazer a monda, provavelmente pode pagar a uma criança ou adolescente para o ajudar.
Boas Práticas de Horticultura Biológica
Até agora falámos dos detalhes práticos da horticultura biológica. Este capítulo é uma lista de verificação das melhores práticas, destacando alguns dos factos mais importantes dos capítulos anteriores. Quando dominar as bases, pode usar este capítulo como referência todos os anos ao iniciar a sua horta.
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Escolha as plantas com cuidado — Escolha plantas produtivas no seu clima e que cresçam bem no seu solo, em vez de escolher sobretudo com base no que a sua família gosta de comer.
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Opte por plantas não híbridas — Plantas híbridas ou geneticamente modificadas podem prejudicar os seus objetivos de alimentação biológica. Opte por variedades “standard”.
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Use bem o composto — O composto pode ser misturado no solo e usado como cobertura natural. Faça ambos para melhores resultados.
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Planeie a rotação de culturas — Ao planear as plantações deste ano, planeie também rotações em relação ao ano anterior.
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Recolha água da chuva — Instale um sistema de captação de água da chuva para poder cultivar fora da rede.
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Inicie as sementes na altura certa — Pesquise a época de cultivo na sua região e inicie as sementes no momento adequado, para transplantar para o exterior depois de passar o risco de geadas.
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Fortaleça as plântulas — As plântulas precisam de resistência para sobreviver no exterior; dê-lhes alguma “dureza” enquanto crescem dentro de casa.
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Agrupe as plantas em linhas próximas, com espaço entre linhas — A proximidade reduz ervas daninhas, e o espaço entre linhas melhora a circulação de ar.
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Regue bem, mas com pouca frequência — Regue até uma profundidade de cerca de 2,5 cm (1 polegada), uma a duas vezes por semana.
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Atraia criaturas úteis — Cultive plantas que atraiam animais e insetos benéficos, como os que comem insetos nocivos.
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Controle as ervas daninhas regularmente — Pequenos períodos diários de monda evitam que as ervas se transformem num grande problema.
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Regue junto à base das plantas — As raízes é que precisam de água; regue junto ao pé, não nas folhas.
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Lide com pragas de forma natural — As pragas acontecem. Use predadores naturais e plantas repelentes.
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Elimine plantas doentes — Plantas doentes podem contagiar as outras. Retire-as e queime-as para proteger a horta.
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Maximize a exposição solar — As plantas precisam de sol para viver e prosperar. Plante no local com máxima exposição.
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Evite adicionar algo que não seja natural — A horta só é biológica se se esforçar para mantê-la assim. Não adicione nada “não natural”.
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Colha com frequência — Muitas plantas continuam a produzir se forem colhidas regularmente.
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Cause o mínimo impacto ambiental possível — Pode ser tentador lavrar todo o quintal, mas tente trabalhar com o terreno como ele é, para reduzir o impacto.
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Seja flexível — A horticultura está cheia de surpresas. Se uma planta não resultar, experimente outra no próximo ano. Quanto mais adaptável for, melhores serão os resultados — e mais divertido será o processo.
Estas “boas práticas” funcionam bem tanto para hortas interiores como exteriores. Na verdade, a única diferença real entre as duas é o tamanho e a localização. Os princípios básicos — solo saudável, água suficiente, luz adequada e controlo de pragas — mantêm-se.
O essencial é que cultivar fora da rede não é tão difícil como pode parecer. Se planear bem a luz e a água, toda a outra “energia” de que precisa vem das suas próprias mãos. Quer viva fora da rede, quer apenas queira cultivar sem depender de eletricidade, é totalmente possível com a educação e os recursos certos.
A horticultura é uma das atividades mais gratificantes que pode fazer. Quando cultiva de forma biológica, torna-se ainda mais recompensador. Vai poder alimentar a sua família com comida que cultivou, livre de químicos tóxicos. Sempre que preparar uma refeição, terá confiança na qualidade do que está a servir.
Também é possível “sair da rede” ao cultivar. Recolha água da chuva e aproveite ao máximo a luz e o calor do sol, e conseguirá uma horta produtiva sem depender de eletricidade ou de água da rede. No fim, a sua família estará mais saudável e estará a fazer a sua parte para reduzir o impacto ambiental — sem sacrificar a qualidade dos alimentos que consome.
