Guia prático (PT-PT) para avaliação rápida, prioridades e kit essencial — não substitui formação certificada
0) Enquadramento e regra de ouro
Num desastre, terá poucos recursos e pouco tempo. O que salva vidas é, quase sempre, uma combinação de:
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Segurança da cena (não criar mais vítimas),
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Prioridades corretas (tratar o que mata primeiro),
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Técnicas simples bem executadas (pressão direta, SBV/CPR, proteção térmica),
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Acionamento precoce de ajuda.
Este texto é para orientação geral. Para estar realmente preparado, faça formação de Suporte Básico de Vida (SBV) e primeiros socorros.
1) Pedir ajuda em Portugal: quem ligar e quando
1.1 Emergência (acidente/doença súbita grave): 112
O 112 é o Número Europeu de Emergência e, em Portugal, as chamadas são triadas e encaminhadas para o INEM quando são situações de saúde.
Ligue 112 imediatamente se houver:
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inconsciência, convulsão prolongada, dificuldade respiratória importante;
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dor no peito sugestiva de enfarte, sinais de AVC;
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hemorragia abundante que não cede;
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queimaduras extensas/profundas;
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intoxicação grave ou suspeita de monóxido de carbono.
O que dizer ao operador (estrutura simples):
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Onde está (morada, ponto de referência, acessos)
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O que aconteceu (queda, explosão, incêndio, colisão, etc.)
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Quantas vítimas e estado (respira/não respira, sangra muito, inconsciente)
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Perigos na cena (gás, eletricidade, fumo, risco de derrocada)
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O seu contacto e não desligue até indicarem.
1.2 Intoxicações: CIAV (INEM) – 800 250 250
O Centro de Informação Antivenenos (CIAV) orienta vítimas e familiares, 24/7, para intoxicações por medicamentos, produtos domésticos/industriais, plantas/animais, etc. O número 800 250 250 é o contacto divulgado pelo INEM.
1.3 Situações não emergentes (quando aplicável): SNS 24
Para aconselhamento e encaminhamento (não substitui 112 em emergência).
2) Segurança da cena: antes do doente, pense em si
Antes de tocar na vítima, faça um “varrimento” mental rápido:
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Há fumo, gás, risco de explosão?
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Há eletricidade (cabos caídos, água + corrente)?
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Há risco de queda de detritos, incêndio, tráfego?
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É preciso luvas/máscara?
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Consigo atuar sem me colocar em perigo?
Regra prática: um socorrista ferido é mais uma vítima.
3) Avaliação inicial do doente: abordagem (C)ABCDE
Em trauma e em cenários com múltiplas vítimas, use uma lógica simples e consistente. Uma abordagem muito usada é (C)ABCDE, porque controla cedo o que mata rapidamente (hemorragia). (Em formação formal, verá variações equivalentes.)
C — Hemorragia catastrófica (massiva)
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Exponha a zona (se seguro).
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Pressão direta firme e contínua com compressa/pano limpo. Não “espreite” a cada 10 segundos.
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Se “encharcar”, não retire o primeiro penso; coloque outro por cima e continue a pressionar.
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Se for hemorragia de membro e não controla com pressão direta, considere torniquete comercial, idealmente com treino (situação de risco de vida).
Nota: as recomendações internacionais colocam a compressão direta como primeira linha e reservam torniquete para hemorragia de membro que ameaça a vida e não é controlável por pressão.
A — Via aérea
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A vítima consegue falar? Se sim, a via aérea está, em princípio, permeável.
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Se inconsciente, vigie obstrução por vómito/sangue e esteja pronto para colocar em posição lateral de segurança se respirar.
B — Respiração
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Está a respirar? A respiração é “normal” ou há grande esforço/ruído?
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Lesões torácicas graves exigem evacuação urgente.
C — Circulação (choque/perfusão)
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Pele muito pálida/fria/suor, pulso rápido, confusão, sede intensa, fraqueza → suspeite choque.
D — Neurológico
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Está alerta? Confuso? Sonolento?
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Mudança súbita de fala/força/visão → suspeite AVC.
E — Exposição / Ambiente
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Procure lesões “escondidas”, mas previna perda de calor (manta, roupa seca, isolamento do chão).
4) SBV/CPR (adulto): o essencial que deve memorizar
Se a vítima está inconsciente e não respira normalmente, presuma paragem e:
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Ligue 112 (ou peça a alguém para ligar) e traga um DAE se existir.
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Inicie compressões torácicas:
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Ritmo: 100–120/min
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Profundidade: 5–6 cm
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Permitir retorno completo do tórax (não “apoiar peso” entre compressões)
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Interrupções mínimas
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Se souber e conseguir ventilar: 30 compressões : 2 ventilações. Se não, faça compressões contínuas até chegar ajuda.
5) Avaliação secundária: “da cabeça aos pés” + história (SAMPLE)
Quando o risco imediato está controlado:
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Cabeça e pescoço (sem mexer se suspeita de coluna)
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Olhos, face
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Tórax e abdómen
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Bacia e extremidades
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Costas/coluna (só se seguro e com ajuda)
História rápida (SAMPLE)
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Sinais e sintomas
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Alergias
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Medicação (inclui anticoagulantes)
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Passado clínico relevante
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Lastre (última refeição/bebida)
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Eventos que levaram ao problema
6) Choque: reconhecer, proteger, evacuar
O choque é perfusão insuficiente dos tecidos. Sinais típicos: pele pálida e fria, pulso rápido, confusão/sonolência, fraqueza, náuseas, sede.
O que fazer:
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Tratar a causa (ex.: hemorragia)
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Deitar a vítima (se não houver dificuldade respiratória importante)
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Manter quente e seco
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Vigiar respiração/consciência e preparar evacuação (112)
7) Sinais vitais de referência (adulto em repouso)
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Pulso: 60–100 bpm
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Respiração: 12–20/min (muitas referências apontam 12–18)
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Hipotensão (regra prática em adulto): valores < 90/60 mmHg são geralmente considerados baixos
Importante: evite “fórmulas” do tipo “80 + idade” para pressão arterial em adultos — não são uma referência clínica fiável.
8) Lesões e atuação por tópicos
8.1 Hemorragias e feridas
Ferida grave a sangrar:
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Pressão direta + compressas/pano limpo; reforçar por cima se necessário.
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Se não controlar e for membro → considerar torniquete comercial (treino recomendado).
Ferida menor:
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Lavar com água corrente e sabão; cobrir com penso limpo.
O que evitar:
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Peróxido de hidrogénio/água oxigenada e álcool “para desinfetar” de rotina: podem irritar/lesar tecido e atrasar cicatrização.
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Remover “coisas cravadas”: não retirar objetos empalados; estabilize à volta.
8.2 Amputações (quando aplicável)
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Controlar hemorragia prioritariamente.
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Parte amputada: envolver em gaze estéril seca, colocar em saco, manter fresco (não congelar) e evacuar.
8.3 Cabeça e coluna
Suspeite lesão da coluna se: queda de altura, colisão, projeção, impacto forte, dor cervical, dormência/alteração de força.
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Evite mexer; estabilize cabeça/pescoço manualmente.
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Chame 112 se sinais neurológicos, alteração de consciência, vómitos repetidos, convulsão, etc.
8.4 Olhos
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Corpo estranho superficial: tentar irrigar suavemente; se não sair, proteger e avaliar.
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Químico: irrigar abundantemente com água durante vários minutos e evacuar.
8.5 Epistaxis (sangramento do nariz)
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Sentar, inclinar para a frente, pinçar a parte mole do nariz 10–15 min contínuos; respirar pela boca.
8.6 Traumatismo dentário (dente definitivo “arrancado”)
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Pegar pela coroa (não tocar na raiz).
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Se sujo, passar rapidamente por soro/leite/saliva e tentar reimplantar se possível; se não, transportar em leite/soro/saliva e ir ao dentista/urgência.
Nota: em crianças pode ser dente de leite; em caso de dúvida, preserve e procure avaliação.
8.7 Tórax
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Dificuldade respiratória importante, dor torácica pós-trauma, ferida penetrante: tratar como situação grave e evacuar (112).
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Mantenha a vítima confortável, vigie choque.
8.8 Abdómen
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Trauma abdominal com dor intensa, rigidez, vómitos, fraqueza ou sinais de choque: 112.
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Vísceras expostas: cobrir com compressa estéril húmida (sem reintroduzir) e evacuar.
8.9 Bolhas (caminhadas/bug out)
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Prevenir cedo (fita/penso).
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Não rebentar de rotina; proteger e reduzir fricção.
8.10 Queimaduras
Primeiro passo (o mais importante): arrefecer
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Arrefecer a queimadura com água corrente fresca/temperada por 20 minutos, o mais cedo possível.
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Nunca usar gelo nem manteiga/cremes gordurosos.
Depois: -
Remover anéis/relógios/jóias se não estiverem colados.
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Cobrir com penso limpo/não aderente; controlar dor; vigiar choque.
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Queimaduras extensas, profundas, químicas, elétricas ou em face/mãos/genitais: urgência.
8.11 Lesões elétricas
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Só tocar na vítima quando a corrente estiver desligada (quadro/disjuntor).
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Avaliar SBV e queimaduras; evacuar.
8.12 Fraturas, luxações e entorses
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Imobilizar a articulação acima e abaixo, sem apertar circulação.
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RICE (repouso, gelo protegido, compressão moderada, elevação).
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Dor intensa, deformidade, ferida aberta ou dormência: avaliação médica.
9) Emergências médicas (resumo operacional)
9.1 Convulsão
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Proteger de impactos, não colocar nada na boca, não imobilizar à força.
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Se inconsciente após crise mas a respirar: posição lateral de segurança; 112 se primeira crise, duração prolongada, trauma, gravidez, diabetes, etc.
9.2 Hipoglicemia (diabético “estranho/confuso”)
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Se consciente e consegue engolir: dar açúcar (sumo, açúcar dissolvido, pastilhas).
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Se inconsciente: não dar nada por boca; 112.
9.3 AVC
Sinais súbitos (face caída, fraqueza num braço, fala alterada): emergência. 112.
9.4 Enfarte
Dor/pressão no peito, falta de ar, suor frio, náuseas, mal-estar: 112 e repouso.
9.5 Calor: cãibras, exaustão, golpe de calor
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Exaustão: sombra, arrefecer, líquidos.
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Golpe de calor (confusão/inconsciência): arrefecimento agressivo e 112.
9.6 Hipotermia e congelamento
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Hipotermia: tirar do frio, roupa seca, isolamento, aquecer progressivamente.
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Congelamento (frostbite): reaquecer apenas se não houver risco de recongelar, idealmente em água 37–39°C até tecido ficar maleável (~30 min).
9.7 Anafilaxia (alergia grave)
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Dificuldade respiratória, inchaço da face/língua/garganta, urticária generalizada, tonturas: 112.
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Adrenalina intramuscular é primeira linha em anafilaxia; usar auto-injetor se a pessoa tiver prescrito e disponível.
10) Intoxicações e exposições
10.1 Monóxido de carbono (CO)
Se houver dores de cabeça, náuseas, mal-estar, desmaio em ambiente fechado com aquecedores/braseiras:
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Ventilar (abrir portas/janelas), retirar pessoas para o exterior e pedir ajuda.
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O INEM recomenda contactar 112 e/ou CIAV 800 250 250 perante sintomas sugestivos.
10.2 Ingestões (medicamentos/produtos)
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Não induzir vómito sem orientação.
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Ligar CIAV 800 250 250 e seguir instruções.
10.3 Mordeduras/picadas (inclui cobra)
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Lavar com água e sabão, manter calma, imobilizar membro e procurar avaliação.
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Evitar práticas perigosas como torniquetes, cortes e sucção do veneno (desaconselhadas).
11) Kit de primeiros socorros (72h a 1 semana): versão prática e coerente
A regra é simples: o melhor kit é o que sabe usar.
11.1 Núcleo mínimo (para qualquer kit)
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Manual de primeiros socorros (ou guia resumido impresso)
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Luvas descartáveis (várias), máscaras
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Pensos rápidos, compressas estéreis, ligaduras (rolos), fita (médica ou duct tape)
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Tesoura (tipo “trauma shears”), pinça
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Soro fisiológico / água potável para irrigação + seringa de irrigação (se tiver)
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Antisséptico suave para pele íntegra (e.g., toalhetes adequados)
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Analgésico/antitérmico (ex.: paracetamol) e anti-inflamatório (se tolerado)
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Anti-histamínico oral (alergias)
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Antidiarreico e sais de reidratação oral
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Termómetro
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Manta térmica
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Lanterna frontal + pilhas
11.2 Camada “desastre/trauma”
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Pensos compressivos adicionais, compressas grandes
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Penso hemostático (se tiver acesso e treino)
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Torniquete comercial (se tiver formação/treino para uso correto)
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Tala maleável (tipo SAM) e ligaduras elásticas
11.3 Medicação prescrita (individual)
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Medicação habitual (com plano de reposição e validade)
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Auto-injetor de adrenalina se prescrito
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Qualquer antibiótico/opiáceo apenas com prescrição e orientação clínica (não “para desenrascar”).
12) Referências essenciais recomendadas (para aprofundar)
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INEM — informação sobre ligar 112 e cadeia de sobrevivência.
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INEM/CIAV — intoxicações e contacto 800 250 250.
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ERC/ILCOR — parâmetros de compressões (100–120/min, 5–6 cm) e orientações de primeiros socorros.
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Queimaduras — arrefecer com água corrente 20 min; evitar gelo e substâncias gordurosas.
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Feridas — evitar peróxido de hidrogénio de rotina em cortes/escoriações.
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Congelamento — reaquecer 37–39°C quando indicado.
