As crianças têm um talento natural para construir abrigos, mas é importante ensiná-las a fazê-lo em situações reais de sobrevivência.
Um dos maiores fatores na construção de um abrigo é a localização. Muitas vezes, os abrigos mais fáceis de fazer ficam escondidos e fora do caminho — mas, em sobrevivência, muitas vezes o que quer é estar visível e “no aberto”, para poder ser visto e encontrado. Lembre constantemente as crianças de que uma grande parte da sobrevivência é ser resgatado — e isso implica fazer sinais e/ou usar navegação para regressar a casa. No entanto, se forem apanhados numa tempestade ou a noite cair depressa, então terão de tirar o melhor partido do que existir à volta e reforçar esse conceito com as crianças.
Na escolha do local, certifique-se de que não há nada que possa cair em cima de vocês. E confirme que não estão numa zona de enxurrada/cheias rápidas e que não estão num trilho de animais entre a fauna e a sua comida, água ou abrigo.
Depois de uma avaliação de perigos, peça às crianças que considerem a visibilidade do local do abrigo:
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Dá para ser visto do ar?
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Dá para ser visto de colinas ou montanhas?
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De onde é mais provável virem os socorristas? (Tente adivinhar o “eixo de aproximação” e tornar o local visível nesse sentido.)
De seguida, avalie meteorologia e vento. Se estiver no topo de uma colina, pode notar vento forte — e desse lado pode entrar uma tempestade durante a noite. Nesse caso, pode compensar construir o abrigo um pouco abaixo do cume, do lado mais protegido. Estes são pontos a ensinar às crianças, e são também boas regras para adultos.
Garanta que as crianças entendem a importância do tempo. Ensine que um abrigo bom pode levar duas horas a construir. Por vezes faz-se em uma hora, mas as crianças avançam mais devagar quando os pais não estão por perto ou quando estão assustadas e inseguras. Muitas vezes não estimam bem o tempo e acabam no escuro antes de terminar. Incuta nelas que demora — para que comecem mais cedo em vez de mais tarde, se estiverem sozinhas e precisarem de abrigo.
Depois de cobrir os princípios de localização e tempo, fale dos abrigos em si. Num mundo ideal, teriam uma tenda: uma pequena, leve, auto-montável, para uma pessoa, é o ideal — mas é cara.
O segundo melhor tipo de abrigo é a rede/hammock moderna de selva, porque:
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tira a pessoa do chão;
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tem toldo/chuva (rain fly) e rede mosquiteira;
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a parte inferior é de material sólido (não é rede).
São mais baratas do que uma tenda/bivaque no chão, mas mais difíceis de montar para crianças, porque há alguma “arte” em esticar e fixar uma rede. Escolha a melhor solução para o seu ambiente e faça-os praticar sem ajuda.
Os sacos “bivaque” (bivy) simples também são fáceis: são como sacos-cama leves, num invólucro impermeável e corta-vento. Para usar, basta tirar, entrar e deitar num local plano e bem escolhido. São baratos e leves — para a maioria dos orçamentos, costumam ser a melhor opção.
Um abrigo adicional para as crianças é uma lona, um poncho, ou até um saco do lixo grande e reforçado. De novo: barato, leve, pequeno, e com muitos usos. Ensine com base no que lhes está a dar e no que elas levam.
Mesmo que não tenha nada, há outras formas de fazer abrigo na natureza e sobreviver. A regra é: o mais fácil primeiro. Olhe à volta e faça o que existe funcionar a seu favor. Se houver um veículo avariado, aeronave, embarcação, destroços, ou detritos de construção, use isso.
Tenha em conta que construir abrigo leva tempo — e um abrigo bom dá trabalho e consome energia, especialmente para ficar corta-vento e impermeável. Se tiver a sorte de já ter isso resolvido, ou estiver num clima tão ameno que dá para dispensar abrigo, pode ponderar não fazer nenhum. Mas não recomendamos ensinar isso às crianças. Mesmo em boas condições, recomendamos sempre algum tipo de cobertura. O tempo muda rápido e a temperatura noturna pode ser muito diferente da diurna. Não arrisque: faça tempo e faça abrigo primeiro, a menos que esteja completamente derrubado por doença, lesão ou fadiga. Preserve saúde e energia — pode ser isso que o salva. Proteja a saúde e deixe o bom senso (e a aversão a riscos desnecessários) guiar as decisões.
Ao ensinar crianças, foque-se em perguntar “o que pode correr mal?” em cada passo e deixe-as ver os riscos e propor soluções — nem que seja apenas abrandar. É vital aprenderem a manter-se saudáveis e evitar lesões.
O fator tempo
Dê a si próprio pelo menos uma hora para montar um abrigo mínimo se houver bons materiais à volta. Se não houver muito, conte com duas horas. Abrigos levam tempo. Inclua esse tempo no seu plano. Se for manhã cedo, ótimo — há margem. Se for tarde ou fim do dia, suba o abrigo na lista de prioridades. Mesmo que já tenha algo, entre no abrigo e teste-o antes de escurecer.
Já demorei um dia inteiro a fazer um abrigo muito bom, mas só depois de ter comida e água tratadas. Nalguns abrigos dormi tão bem como em qualquer cama. Nesses casos, tirei tempo para o elevar do chão e protegê-lo de vento, chuva e animais, e garanti boa cama/acolchoamento e boa cobertura no interior. Em qualquer abrigo, reúna bastante material para amortecimento ao dormir e muitas folhas/vegetação para isolamento térmico.
O foco do primeiro dia é fazer apenas o necessário: um abrigo “bom o suficiente”. Depois disso, hidrate-se, coma, mantenha-se seco, trate feridas, faça fogo, faça ferramentas, faça sinais — ou faça qualquer tarefa produtiva, se ainda houver luz do dia depois do abrigo pronto.
Ensinar a dormir
Durma o máximo possível na primeira noite de uma situação de sobrevivência. Provavelmente acabou de passar por um inferno. Está mais cansado e assustado do que pensa.
Isto é normal. Toda a gente se preocupa quando não tem controlo. Mas pode controlar-se a si próprio. Comece por descansar, ou “recuperar”. O corpo precisa de tempo de baixa atividade para recuperar forças e manter a saúde. Não subestime o poder do sono e não o negligencie como parte obrigatória do planeamento em todas as fases.
Além disso, não se deixe — nem deixe as crianças — cair na desmoralização. Foque-se antes em melhorar a situação, tornando o abrigo “bom o suficiente” para garantir uma boa noite de sono na segunda noite. O mundo parecer-lhe-á melhor depois disso.
Ficar ou ir
Depois de descansar, pode tomar uma decisão mais informada: ficar ou mover-se. Se decidir ir, ter gasto demasiado tempo no abrigo teria sido desperdício de tempo e energia — e isso pode custar caro mais tarde. É outra razão para construir apenas um abrigo simples na primeira noite. Mesmo que decida ficar, pode descobrir que o local escolhido inicialmente não era o melhor na área imediata: pode estar numa abertura ao vento dominante, ou numa zona onde a água escorra para dentro se chover a sério.
Reconhecer (Scout)
Se for para ficar, explore à volta e veja o que existe disponível. Eu chamo-lhe “compras de abrigo”. Pode poupar tempo e energia.
Já encontrei cavidades naturais, reentrâncias, concavidades de terreno adequadas para um abrigo baixo. Já encontrei árvores inclinadas, árvores com raízes grandes e rochedos bem colocados — ótimos para transformar num abrigo. Se precisar de ir, durante a caminhada esteja sempre atento a “oportunidades”: um abrigo “barato” pelo caminho. Já encurtei deslocações longas só para aproveitar uma boa oportunidade de abrigo. Se está a deslocar-se, não sabe quanto vai durar. Eu planeio sempre para muito tempo, para fixar a ideia: “estou aqui até deixar de estar”.
Em suma: a função do abrigo é protegê-lo dos elementos quando necessário e protegê-lo quando está vulnerável durante o sono. O nível de qualidade afeta o sono, o que afeta decisões, julgamento e tempo de reação.
Considerações básicas para abrigos (para rever e reforçar)
Não existe uma “forma certa” única de construir um abrigo de sobrevivência. Vai usar os materiais disponíveis, por isso cada abrigo será diferente.
Ainda assim, há princípios básicos que, praticados, permitem fazer bons abrigos em praticamente qualquer ambiente, com ou sem ferramentas.
Alguns termos para abrigos básicos:
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A-frame (estrutura em “A”);
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tipi/teepee (como o tipi indígena feito com varas e folhagem);
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lean-to (uma “parede” inclinada de varas para cortar vento/chuva).
Também pode escavar, usar rochas ou troncos, cavar na neve, etc.
Rochas
Rochas geralmente não são boas para fazer abrigo. Dormir em cima delas drena calor do corpo, a menos que tenha saco-cama e/ou isolante. E rochas por vezes caem sem aviso. Resumo: não durma em rochedos grandes, a menos que seja a única opção — e verifique sempre se não há pedras grandes com risco de cair ou rolar.
Sair do chão
A primeira regra, em todos os casos, é sair do chão. Eu procuro árvores primeiro quando preciso de abrigo rápido. Isso tira-me do chão e protege-me de muita coisa: cheias rápidas, animais e insetos.
Nenhum abrigo é perfeito e há sempre risco (cobra, inseto), mas raramente é mais provável numa árvore do que no chão.
No pior cenário, sem ferramentas ou sem tempo, procure dois bons ramos: um para se sentar/escarranchar e outro perto o suficiente para se “entalar” e não cair. Depois encoste o corpo ao tronco. Eu chamo a isto “dormir de avião”: está alto e consegue quase dormir… mas não totalmente, como nos bancos da classe económica.
Ainda assim, tira-o do chão e pode dar algum abrigo (se a copa for densa e não houver muito vento/chuva). E é mais seguro do que nada — desde que não esteja tão alto que uma queda seja grave. Em qualquer caso, é sensato usar um cinto, atacadores ou uma peça de roupa para se “amarrar” e não cair. Por exemplo, pode amarrar braços ou pernas: se escorregar, o puxão trava a queda e dá-lhe tempo para reagir.
Exercícios de reação imediata (IAD)
Eu ensaio sempre os meus “immediate action drills” (IADs) antes de dormir fora de casa, seja a acampar ou num hotel. Ensine isto às crianças também.
Se estiver numa árvore, pratico algumas vezes, de preferência antes de escurecer, onde agarraria se caísse. Assim, se algo ceder, a resposta está ensaiada o suficiente para reagir de imediato, mesmo acordando de repente.
Faço IADs em todo o lado: imagino o que pode acontecer, faço um plano, ensaio mentalmente e pratico quando exige resposta física. É uma base para qualquer emergência.
Também tenho sempre algum “meio de defesa” à mão (um pau, uma pedra, etc.) e ensaio como o alcançaria e usaria.
Portanto: amarre-se, ensaie IADs antes de dormir e combine um plano de ligação/reunião (link-up) com as crianças caso algo aconteça durante a noite. Faça isto com rigor.
Abrigo em árvore
Ao escolher uma árvore (ou árvores), vejo primeiro se é fácil subir e descer. Procuro uma árvore fácil de escalar com um bom “garfo” de dois ramos muito fortes, para poder pôr outros ramos por cima como plataforma — um bom começo para um abrigo. Ajuda prender esses ramos antes de construir por cima. Também procuro um terceiro ramo para “telhado”. A altura depende do que encontrar, mas idealmente pelo menos à altura do ombro e não tão alto que uma queda seja fatal.
Cama em árvore
Se as árvores forem demasiado grandes, altas ou inadequadas, procuro grupos de árvores mais pequenas, idealmente três ou quatro próximas, para colocar ramos atravessados nas forquilhas e criar uma plataforma.
Pense nesses ramos como a estrutura da cama. Tente nivelar o mais possível. Usar as forquilhas das árvores poupa amarrações — útil se não tiver corda.
E não se limite por ideias pré-concebidas. Se não dá para fazer uma cama “quadrada”, faça triangular e durma encolhido. Se houver muitas árvores que podem ser ligadas por varas, use isso. O essencial é: fora do chão e numa plataforma relativamente plana e segura.
Depois de fazer a armação, coloque mais ramos paralelos entre a estrutura exterior (como ripas). Por cima, ponha muito material fofo para colchão — idealmente uma espessura grande, porque vai abater com o peso e as ripas raramente ficam completamente suaves.
Depois faça um “telhado” semelhante: use ramos mais altos para ripas e cobertura. Se não houver, pode fazer um telhado piramidal com ramos longos desde os cantos da plataforma até ao centro acima. Deixe a abertura do lado oposto ao vento e empilhe o máximo de folhagem no telhado para reduzir entrada de vento e chuva.
Conceitos-chave do abrigo em árvore: fora do chão, plataforma forte e cobertura superior decente. Muitas vezes fica parecido com um ninho de pássaro, mas é fácil de fazer, usa apenas árvores e protege-o bem. Lembre-se: leva tempo.
Isto é difícil para crianças e é sobretudo para pais construírem para maximizar segurança. Ainda assim, como guia ajuda a planear para passar a noite em segurança.
Cama de pântano (swamp bed)
É como o abrigo em árvore, mas em vez de árvores de pé como “pernas”, crava três ou quatro troncos no solo e faz uma plataforma por cima. É difícil e normalmente falta madeira ou ferramentas, mas se estiver num pântano, tente elevar as crianças. Pode ter de fazer vigia toda a noite, porque pode haver cobras e jacarés à noite.
Abrigo no chão
Se não houver árvores, ou se não servirem, tudo bem: o chão é onde a maioria dos mamíferos vive — e você também pode. Aplique bom senso.
Se for dormir no chão, tente ficar o mais separado possível dele. Troncos, rochas, pilhas de vegetação — até cactos achatados podem servir (com cuidado). Depois de pôr troncos/varas/pedras, suavize a base com areia, terra solta ou mais vegetação.
Não há limites para o que pode encontrar e usar. A chave é olhar para tudo como recurso: não “o que é”, mas “o que eu preciso” e como pode servir esse propósito. Sobrevivência é imaginação e resolução criativa de problemas — e por isso é excelente para ensinar liderança e até dinâmica familiar: obriga a procurar soluções novas para problemas comuns.
Depois de ter a plataforma, faça paredes e teto se tiver tempo/energia/materiais (ou pode dormir só na plataforma). Uma estrutura clássica é o A-frame:
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Encoste duas varas compridas em ângulo, a uns 1 a 1,5 m (aprox.) de distância na base, encontrando-se num ponto central acima, e prenda-as, formando um “A”.
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Faça outro “A” para a parte de trás.
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Una os topos com uma vara longa e robusta.
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Coloque várias varas inclinadas desse topo até ao chão e cubra com o máximo de folhagem possível.
Também pode usar árvores, rochas, saliências e outros elementos como paredes/teto — sempre com reconhecimento do terreno e aproveitamento dos recursos.
Em clima frio, encha o abrigo com folhas e “enterre-se” nelas como cobertor. Em clima quente, dê mais espaço para circulação de ar (teto mais alto, paredes mais afastadas) para a brisa entrar e não prender o calor.
No que toca a dormir no chão: é melhor estar em cima, não dentro
Em cima do chão é normalmente melhor do que dentro do chão por várias razões:
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se chover, é menos provável ficar inundado;
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insetos procuram buracos;
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o solo escavado é mais frio e húmido;
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escavar consome muita energia.
Portanto, salvo exceções e necessidade, é melhor ficar em cima. A regra útil é: “em cima, não dentro” — mas se estiver um calor ou frio extremos, pode precisar de se enterrar para reduzir exposição. Procure zonas de solo mais macio.
No deserto de dunas, a situação é má. Seja frugal com energia e decisões. A chave é poupar água: cave até um ponto mais fresco, faça sombra com o que tiver e evite expor pele ao sol. Faça um buraco pequeno, estenda roupa por cima, fixe as bordas com areia e descanse de dia; trabalhe/mova-se de noite.
Em frio extremo (montanhas/floresta), procure cavar numa zona com neve para fazer uma caverna. Faça isso cedo: o frio reduz capacidades rapidamente. Cavar na neve é mais quente do que o ar exterior. Ponha uma camada entre si e a neve; o calor do corpo derrete e molha.
Se não houver neve suficiente para cavar, ainda pode moldá-la: iglus são difíceis sem pá, mas pode fazer “bolas” grandes de neve e empilhar como tijolos, preenchendo falhas com neve. A forma piramidal costuma funcionar bem: cada fila entra um pouco, até formar teto.
Isto tudo leva tempo e, sem luvas, é duro. Pondere custo (tempo/energia) versus benefício. Se vai ficar no frio, pode valer a pena construir no primeiro dia, enquanto ainda tem força.
Regra: se não tem abrigo e está muito frio, não fique no chão — entre no chão/neve para ganhar calor ao reduzir vento e precipitação. No pior caso, raspe um buraco, deite-se e cubra-se: compra tempo para descansar e reorganizar. Depois, mesmo uma sesta ajuda a decidir se reforça o abrigo ou se segue caminho.
Hora de agir — e agir a tempo
Em sobrevivência, lembre-se: “tudo” pode matá-lo. Pare um momento, pense e questione antes de agir:
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O que pode correr mal?
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Há maneira melhor?
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Preciso mesmo disto, ou há alternativa?
As crianças devem ser lembradas de que cada hora sem comida/água, sem sono, ou exposta a temperaturas extremas é mais uma hora a aproximar-se de desastre, se não estiverem a trabalhar para serem encontradas. Não fiquem parados a lamentar.
Ao mesmo tempo, quando há tempo, ensine-as a não se precipitarem, para não se lesionarem ou perderem um alimento importante. Em circunstâncias urgentes, quando “não há tempo”, uma decisão imperfeita pode ser melhor do que nenhuma — a inação pode causar mais dano.
Um bom mnemónico para abrigo é SITTING:
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S de Shelter (Abrigo): encontre, construa e use um adequado ao ambiente.
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I de Improvise (Improvisar): use destroços e improvise materiais.
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T de Trees (Árvores): procure árvores para abrigo sempre que possível.
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T de Time (Tempo): planeie e comece cedo.
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I de Insects (Insetos): antecipe bugs/parasitas e proteja-se.
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N de Nature (Natureza): use cavidades, troncos, valas, folhagem, terra, rochas, etc.
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G de Ground (Chão): plataforma no chão como último recurso; subterrâneo em extremos.
Abrigo por ambiente
Selva
Os melhores abrigos são os comprados que combinam rede, toldo e mosquiteiro. São muito leves. Em sobrevivência não planeada, pode não ter isso — mas se viajar por selva, leve um.
Tendas não são grande ideia na selva: é difícil achar um sítio limpo, plano e seco. Chuva e bichos são um problema. Pense “rede” e saia do chão. Já vimos formigas cortadeiras abrirem um buraco na tenda porque fomos apressados e não inspecionámos bem o local.
Recomendo o trio “HPN” (Hammock, Poncho, Net) — e prefiro unidades separadas. Gosto da rede de selva do Exército dos EUA pela utilidade: pode virar saco de transporte, maca, armadilha, rede de pesca, etc. Ainda assim, redes não são ideais para crianças; as recomendações do início do capítulo são melhores para a maioria das famílias.
Regra geral: máximo uso com mínimo peso e volume. Equipamento caro e “muito específico” tende a ser menos prático do que parece em sobrevivência, porque as necessidades básicas exigem muitas ferramentas. Escolha o que se adequa ao ambiente, às crianças, ao orçamento e aos usos.
Selva sem equipamento: vá para as árvores. Se precisar de elevar crianças e não puder fazer uma plataforma “clássica”, pense num “quatro-postes” com mini-tripés: pegue em três paus curtos (c. 30 cm), junte, amarre (atacadores, tecido rasgado, fibras naturais) e abra como tripé. Faça quatro. Depois ponha varas longas por cima, atravesse varas mais curtas, e faça ripas/folhagem. Se não tiver corda, use vinhas flexíveis, ramos jovens, raízes longas e resistentes.
Se não tiver nada, se estiver escuro ou sem energia, pegue em folhas grandes e faça um tipo de manta encostado ao lado seco de uma árvore. Procure uma árvore inclinada e olhe para cima por ramos soltos. Ponha muita folhagem por baixo para elevar o corpo e aguenta a noite.
Na selva, brinque com bambu: corte secções mais grossas, rache ao meio e faça duas camadas (uma com o lado interno para cima, outra com o lado externo para cima), sobrepondo para a água escorrer e drenar. É simples e muito eficaz.
Resumo da selva: sair do chão, atenção a insetos, e manter-se seco.
Deserto
O deserto pode ser escaldante e à noite gelado. Ensine as crianças a respeitar a natureza. O deserto mata se for descuidado.
Comece sempre por ver o que existe: terreno que dê sombra durante parte do dia — encontre e use. Ao meio-dia, se não houver cobertura, sente-se, tire roupa e crie sombra com ela. Se conseguir uma depressão/buraco para entrar, melhor.
Não exponha pele: queimadura solar é rápida, dolorosa e pode ser perigosa; bolhas “roubam” água do corpo. Ensine protetor solar, chapéu, óculos, bálsamo labial e mangas compridas.
Se tiver lona/tarp, use de dia: coloque a alguns pés acima para o calor radiar e o ar circular. À noite a temperatura cai bastante. Se o plano for caminhar para segurança, pode compensar viajar de noite. Se tiver de dormir, reconheça um bom local antes de escurecer e reúna materiais para aquecer. Pequenas grutas, a parte inferior de saliências rochosas e vegetação densa podem servir. Um ressalto rochoso com uma pequena fogueira pode aquecer o suficiente para passar a noite.
Ambientes frios
Em clima frio, a primeira prioridade é sair do frio. Água, fogo, comida e quase tudo o resto vêm depois de abrigo. Cada minuto exposto reduz capacidade física e mental, levando a más decisões e colapso.
Se encontrar campo de rochas, procure abrigo aí: há bolsas de espaço entre neve e rocha e corta melhor o vento. Se não houver, vá para as árvores. Muitas vezes há espaço sob ramos carregados de neve — uma “toca” pronta. Se a neve for pouca, use a árvore como abrigo temporário enquanto faz uma parede de neve/destroços.
Abrigos de detritos usam tudo o que possa puxar/arrastar/partir e juntar. Não são bonitos nem perfeitos, mas a sensação de ter abrigo ajuda psicologicamente e reforça a vontade de viver. Ainda assim, consomem tempo e energia — planeie.
A técnica mais rápida é cavar na neve e cobrir-se: compra tempo e é surpreendentemente mais quente dentro de uma caverna de neve, mesmo pequena. Também ensine as crianças a fazer sinais (ramos escuros na neve branca, em grupos de três, setas para a toca) para serem encontradas.
Em ambiente abaixo de zero, ficar parado e esperar pode não ser a melhor opção, a menos que tenha recursos ou alta probabilidade de busca próxima. Sem recursos, esperar sozinho pode matá-lo tal como no deserto. Sem equipamento, o ambiente é demasiado duro: abrigos rápidos e movimentos rápidos podem ser a chave.
Beira-mar e/ou ilha
A menos que esteja numa ilhota sem vegetação, costuma conseguir fazer um abrigo decente na praia ou perto dela. Há sempre detritos trazidos pelo mar que podem servir para elevar uma plataforma.
Verifique sempre acima (coisas que possam cair). Cocos são perigosos: podem cair sem aviso e matar — e ao mesmo tempo salvam por fornecerem água e comida.
Observe o terreno: sulcos de enxurradas, sinais de animais (pegadas, buracos, ninhos, fezes). Se houver muitos sinais, mude de local. Considere também as marés: veja sinais de maré recente, se está a subir ou descer, e se pode cobrir a zona do abrigo.
Na praia, folhas e ramos são bons para cobrir. Folhas grandes (tipo “orelhas-de-elefante”), palmas, etc. Todas exigem estrutura (lean-to, tipi, A-frame). Se tiver tempo, teça as folhas nas ripas; se não, ponha ripas suficientes para segurar as folhas e mais ripas por cima para as fixar no mau tempo.
Bosque
No bosque, os recursos são mais robustos. Há muitos ramos no chão ainda firmes. A vegetação é menos densa do que na selva e muitas vezes nem precisa sair do chão. Faça A-frame, tipi, lean-to, ou use uma árvore como parede e vá empilhando ramos de pinheiro, folhas, terra e recursos.
Depois de pronto e ainda de dia, faça o “teste do sol”: deite-se dentro e procure pontos de luz — são pontos de entrada de chuva. Tape com mais detritos. Também pode fazer “teste de fumo” com fogo pequeno e seguro: onde o fumo sai, a água pode entrar; além disso, ajuda a afastar insetos.
Montanha
Semelhante ao bosque, mas pode incorporar blocos/boulders como paredes e fazer um lean-to encostado. Se não houver blocos grandes, empilhe pedras e crie uma parede simples. Pode até delimitar uma forma (quadrado/círculo/triângulo) com pedras baixas e usar como base para encostar varas e criar um abrigo.
Troncos caídos também podem ser um abrigo temporário excelente, especialmente se estiver ferido/doente. Puxe terra e detritos por cima para cobertura.
Use sempre os “restos” do trabalho: terra, folhas, lascas — transforme em parede, isolamento contra insetos, tapa-fendas para vento/água, ou valeta de desvio à volta do abrigo.
Ensine às crianças um truque para chuva: amarre um fio no ponto de entrada e incline para desviar a água. Em juntas do A-frame, faça sobreposição de folhagem (pelo menos 15 cm) para dispersar antes da junta e escorrer pelas laterais. Ensine alguns nós para trabalhar com cordame ou vinhas.
Se ainda assim entrar água, cave um canal e desvie para fora e durma do lado oposto.
Pântano
Prepare-se para batalha mental: estar molhado baixa a temperatura corporal, amolece a pele e aumenta risco de feridas e infeções. Pode haver jacarés e cobras. Ainda assim dá para sobreviver muito tempo.
Ser encontrado num pântano é difícil. Ficar parado não é bom plano; não perca muito tempo a construir abrigo. Abrigos em pântano devem ser o mínimo para passar a noite e depois mover-se de dia (salvo doença/lesão).
Regra máxima: procurar terreno mais alto e seco. Se conseguir elevar-se do chão, empilhe muita relva/acolchoamento para ficar seco. Tire os sapatos para secar os pés e faça ganchos para secar equipamento. Construa uma plataforma simples em forquilhas de árvores agrupadas e pendure o material à volta. Se precisar, faça um teto contra chuva — mas se não for necessário, não gaste tempo.
A plataforma vai demorar mais do que pensa. Você não vai “ficar” ali: é mais um motel de estrada do que um resort. Seque-se, descanse e siga.
Em qualquer ambiente, os básicos do acampamento mantêm-se: plano de casa de banho, lixo, fogo (local e combustível para a noite). Higiene, hidratação, alguma comida e segurança fazem parte do plano de sono.
Abrigo em casa (indoor)
As crianças adoram construir “cabanas”. Isto é ótimo porque reduz a barreira psicológica: o treino pode ser interessante e divertido desde o início.
Mas, num abrigo de sobrevivência, muitas vezes precisam dormir nele, o que pode ser difícil para os mais pequenos. Rotina dá segurança; dormir fora da cama pode assustar. Para crianças mais velhas, palavras de conforto, uma lanterna e um peluche favorito podem bastar; para outras, o treino deve ser gradual.
Treino de sobrevivência é expor, pouco a pouco, a ideias e experiências novas, para que lidem com o inesperado sem colapsar de medo/frustração. Pequenas conquistas constroem confiança — isto serve também para a vida.
“Acampar” no quarto
Dormir numa cama diferente já ajuda (férias, casa dos avós, dormir em casa de amigos). Se não der, comece por trocas de cama (cama do irmão, quarto de hóspedes). O passo seguinte é dormir fora da cama: “campismo” em casa. Opções: tendas de brincar, lençóis e mantas, adaptar um armário, caixas de cartão. Muitas tendas modernas aguentam-se sem estacas; uma pequena pode servir.
Garanta acolchoamento por baixo: menos por conforto e mais por isolamento do chão frio. É uma lição vital para quando passarem a dormir ao ar livre. Pode acontecer que tenha de se juntar a eles à última hora para que durmam lá.
Dê uma garrafa de água e uma lanterna para a noite: acostuma a manter itens importantes por perto enquanto dormem. Duas lanternas é melhor: uma de emergência e outra “de diversão”. A lanterna de diversão ajuda a explorar o novo ambiente no escuro e a reduzir medo de sombras estranhas. Um jogo de sombras ajuda a mostrar como objetos mudam de forma. Defina um local de armazenamento da lanterna acessível, sobretudo para a lanterna de emergência.
Recomendo que a primeira noite seja no próprio quarto da criança — se estiver desconfortável, pode passar para a cama.
Dormir no chão do quarto pode parecer distante de sobreviver no Alasca, mas está a dar blocos essenciais: lidar com o diferente e inesperado. Depois avance para sala, quintal, casa de amigos, conforme a criança estiver pronta.
O objetivo é que o processo seja globalmente agradável — não é que tudo tenha de ser “divertido”, mas aprender o que resulta faz parte.
“Forte na sala”
Acampar na sala é um bom ensaio para uma situação em que precisa ficar em casa: tempestades, furacões, inundações, deslizamentos, apagões, etc. Em situações destas, juntar a família numa divisão pode ser melhor por razões práticas e emocionais; o ensaio deve incluir os pais.
Em muitas crises, falta eletricidade. No escuro, quer saber onde estão as crianças. Até andar em casa é mais perigoso; tropeça-se com facilidade. Não significa que não se movam, mas minimize deslocações. Uma entorse ou fratura muda tudo numa crise.
Ficar numa divisão reduz uso de lanternas e poupa baterias. Em treino, pratique ficar com pouca luz e pensar em entretenimento sem eletricidade. Pode preparar um “kit de apagão”: mochila/caixa com brinquedos, material de artes, guloseimas “especiais”, e coisas para brincar com pouca luz (paus luminosos, lanternas novelty, tintas que brilham no escuro, etc.).
Ensinar canções tradicionais também ajuda. Um jogo simples é escolher temas/palavras e inventar canções que as incluam, ou cada pessoa cantar algumas linhas. Faça música com instrumentos improvisados. Sombras e histórias (de preferência leves num apagão real) também funcionam. Planeie jogos simples com antecedência.
Uso de velas
Velas provocam muitos incêndios domésticos. Segundo a National Fire Protection Association (NFPA), em média são reportados 24 incêndios domésticos por dia causados por velas e tendemos a incendiar casas com mais frequência no Natal e Ano Novo. A NFPA recomenda que, durante falhas de energia, se usem fontes de luz a pilhas e nunca velas. Num guia de 2017 sobre segurança no uso de velas durante a época de furacões, a National Candle Association e a National Association of State Fire Marshals indicam que cerca de 26% dos incêndios fatais envolvendo velas ocorrem durante falhas de energia.
Em apagões prolongados, pode não haver alternativa. Dicas (óbvias, mas críticas — e boas para ensinar às crianças):
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Mantenha animais de estimação longe das velas.
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Supervisione sempre as crianças. As crianças, como as traças, são atraídas pela chama.
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Coloque a vela numa superfície não inflamável (prato de cerâmica ou tabuleiro).
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Prefira velas grossas e “baixas” a velas finas; são mais estáveis. Uma vela em copo/jarro é ainda melhor.
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Nunca deixe uma vela sem vigilância.
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Para apagar, use um abafador (“snuffer”) em vez de soprar. Se não tiver, humedeça o polegar e indicador e “belisque” rapidamente o pavio para cortar oxigénio (está quente, mas não queima).
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Mantenha a vela a pelo menos 30 cm de materiais combustíveis (cortinas, mobiliário, roupa de cama, livros, roupa). A Cruz Vermelha Americana refere que mais de metade dos incêndios por velas começam porque havia materiais inflamáveis demasiado perto. E nunca procure coisas em armários/gavetas com uma vela.
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Por fim, confirme que os detetores de fumo têm pilhas boas. Em crise, os socorros podem não chegar, mas o alarme pode dar aviso para apagar o fogo ou evacuar.
Idealmente, além de luzes a pilhas, velas, candeeiros a querosene e semelhantes, tenha também luzes/lanternas de manivela e soluções solares. Há opções muito brilhantes hoje em dia. Luzes solares de jardim não iluminam muito, mas se for o que tem, são úteis em escadas ou casa de banho.
Outros fatores a praticar antes
Em sobrevivência em casa sem energia, escolha uma divisão com mais isolamento do exterior (rodeada por outras divisões “buffer”). Em tempestade de inverno, quer reter calor; pós-furacão, quer manter frescura. Numa casa de dois pisos, o andar de cima pode ajudar. A sala é boa por estar perto da cozinha (acesso a água e comida, se houver) e porque muitas casas têm lareira, que aquece e permite cozinhar e ferver água.
Pratique com antecedência “o que comer sem energia”: é um bom momento para introduzir comida armazenada e conceitos como comer feijão frio direto da lata. Uma técnica divertida e útil é cozinhar com uma lata vazia e uma vela tipo “tea light”: lave a lata, faça furos laterais para entrada de ar (embaixo e perto de cima), acenda as velas e coloque a lata por cima — e cozinhe.
Também é boa oportunidade para aprender a improvisar refeições com uma panela e sem forno (lareira ou grelhador no quintal ajudam). Não traga grelhadores a gás para dentro: o monóxido de carbono pode ser mortal.
Outra razão para manter a família junta numa catástrofe é segurança: quando a energia falha por muito tempo, a ordem social pode degradar-se e algumas pessoas comportam-se mal. Não é altura para crianças andarem sozinhas no quintal ou espalhadas pela casa. Mantenha-as perto. E no treino também: faça um plano de segurança e treine os IADs (exercícios de reação imediata).
Por fim, em qualquer acampamento, considere deixar mensagens: escreva em embalagens, notas em latas/frascos/garrafas, ou faça marcações em árvores — e deixe sempre sinais de para onde foi, para quem seguir o rasto poder encontrar o caminho certo.
